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28/04/2017 06h05
Memórias de Aguinhas - Propagandas do comércio e indústria - Anos 1950

Ilustração: Propaganda de A Primavera, extraida do livro Águas Virtuosas de Lambari (Roberto Capri, 1918)


SUMÁRIO


Apresentação

O ÁGUAS VIRTUOSAS, de propriedade de ARISTIDES MOREIRA DE SOUZA, antigo tabelião civil, tendo como redator-chefe o então prefeito JOÃO LISBOA JÚNIOR e como redator URAL PRAZERES, foi um semanário que circulou em Lambari, nos anos 1950. 


 


Pois bem, nos 26 números editados de julho e dezembro de 1953, encontram-se diversas propagandas do comércio, serviços e indústrias locais, que nos ajudam a reviver aspectos, pessoas e empreendimentos da nossa cidade daqueles tempos. 

Com isso — pensamos — pode-se contribuir para que as novas gerações conheçam um pouco da história de famílias pioneiras da nossa Águas Virtuosas do Lambari, visto que propagandas são memórias de épocas, culturas e populações.

Vamos lá.

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Propagandas de Tecidos & Roupas

Neste ramo, tradicionalmente ligado a sírios e libaneses e descendentes, em Lambari vamos encontrar as famílias Bacha e Naback. E também as famílias Viola (A Violinha, de Rômulo e Rubens Viola) e a Lorenzo (Casa América, de José de Lorenzo).

Vejam as propagandas:


Miguel Bacha e família (entre outros: Bebeto, Vavá, Zeca, Nílson, Professor Bacha e Dal)

A Casa Syria ainda persiste, com outro nome, tocada por Marcos, um neto de seu Miguel Bacha

José de Lorenzo (2o. da esquerda para direita) - da Casa América, em foto antiga numa loja de tecidos em Lambari (1928)

À direita da foto, na esquina, local onde funcionou a Casa Dois Irmãos, de Nascime e Roberto Bacha

Aspecto recente da Casa Dois Irmãos, onde funciona atualmente a Mimo Boutique e a Farmácia Novaes

 


Propagandas de Louças & Ferragens

Aqui encontramos duas empresas: A Casa Ferreira, de Jairo Ferreira (da qual já falamos aqui) e a Casa São José, de José Vicente de Oliveira, cujo estabelecimento existe até os dias de hoje, com outro ramo de negócio, mas na mesma família.

A Casa Ferreira era distribuidora de duas antigas marcas de cachaça: Recordação e Meia Lua. Recorde-se que em Lambari, havia a famosa Floresta, produzida por Vito Tucci.

Eis os dois reclames:

Autoridades eclesiásticas em Lambari (1955), passam em frente da Casa São José

Aspecto recente da Casa São José (GoogleMaps, 2011)

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Propaganda de Secos & Molhados

Nesse ramo, temos:

  • a tradicional A Primavera, de Amedeo Viola, sucedido pelos filhos Nequinho e Rosarinho Mileo.
  • Benedito Rambaldi, da Casa Rambaldi, anos depois encerrou o negócio e foi trabalhar na Casa Ferreira, de Jairo Ferreira.
  • A Casa Glória, de Wadih Bacha, que funcionava em anexo ao Hotel Glória (hoje Novo Hotel Glória); após a aposentadoria do seu Wadih, a Casa Glória funcionou muitos anos com Zezão Bacha e sua esposa Zélia.
  • Pedro José de Souza, da Casa São Pedro, que, a partir de 1949, funcionou em prédio próprio, bastante moderno à época, do qual já falamos aqui.

Eis as propagandas:

Os flhos do seu Egídio Mileo. Da esquerda para a direita: Rosarinho e Nequinho, continuadores de A Primavera

Casa São Pedro, de Pedro José de Souza, no prédio inaugurado em 1949

Aspecto recente da Casa São Pedro (GoogleMaps, 2011)

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Propaganda de Farmácias

Empregados por seu Antônio Bacha, de quem foram amigos, meu pai  o Dé da Farmácia  e meu tio João Guimarães trabalharam muitos anos na Farmácia Santo Antônio, onde se aposentaram nos anos 1980. Já escrevi sobre esses dois e seu trabalho na Farmácia. Confira:

  • A vingança de Ben Hur - aqui
  • Qual é a melhor religião? aqui

Tio João e Dé, meu pai.

A viúva e filhos do seu Antônio Bacha

Sobre D. Catarina Bacha, veja este post aqui

Sobre D. Beni Borges Bacha, veja este post aqui


A Farmacia São José pertenceu a Mário Santoro, casado com a prof. Maria Rita Pereira Santoro, sobre quem já publicamos uma crônica aqui

Sobre antigas farmácias de Lambari, veja também este post aqui

Seguem os respectivos anúncios:

À esquerda da foto, na esquina, local onde funcionou a antiga Farmácia Santo Antônio

Farmácia São José, de Mário Santoro. Depois, vendida a Aluísio Junho. 

Na foto: Aluísio, Raul e Fabiano Krauss, ladeando Aluísio Junho (de terno). Abaixo, de chapéu, o fotógrafo Vicente Teixeira Dias (anos 1950)

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Propaganda de Comércio & Serviços

Não há ninguém da minha geração, bem como da anterior e da seguinte, que não tenha comprado material escolar ou um postal no seu Juca Leite, a tradicional Foto Papelaria São Luiz, fundada pelo seu José de Oliveira Leite — o seu Juca. Que ainda hoje funciona, com Joana Rambaldi Leite, viúva de José Gama Leite.

O Bar do Juca é patrimônio histórico de nossa cidade, sobre o qual já fizemos um longo post, que pode ser visto aqui.

E o Palace Hotel, de d. Mariazinha e seu Benedito, resistiu até a pouco tempo, quando transformou-se em um Supermercado da Rede GF.

Parte do Palace Hotel foi demolida e outra reconstruída, para dar lugar ao Supermercado GF (GoogleMaps, 2011)

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Propaganda de Médicos & Dentistas

O grande médico lambariense, Dr. Ismael Gesualdi, anuncia seu consultório, que então funcionava no prédio da Empresa de Águas. Note-se a especialização em dosagem de águas, atividade de antigos crenólogos, hoje pouco praticada (Crenologia = estudo das águas termais ou das águas minerais.). Sobre o Dr. Ismael, veja também esta crônica aqui

Ismael Gesualdi

A seguir, os irmãos Nélson e Sebastião Miranda, divulgam sua clínica dentária. Roach é uma prótese dentária removível. 

Dr. Nelson Miranda, esposa e filhos

Vejam os anúncios: 

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Propaganda de Oficinas

Duas famílias — Castilho e Guimarães de Souza — pioneiras na atividade de serralheria e hidráulica, cujos descendentes — muitos deles — trabalharam e/ou trabalham ainda nessa atividade e moram em nossa cidade.

E assim faziam propaganda de seus negócios:

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Referências

  • Semanario O ÁGUAS VIRTUOSAS, ns. 1 a 25, de 1953 - Disponível em: http://memoria.bn.br
  • Águas Virtuosas de Lambari. Roberto Capri. Pocai & Comp. São Paulo, 1918
  • GoogleMaps
  • Facebook/kitmiranda

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Publicado por Guimaguinhas em 28/04/2017 às 06h05
Esta obra está licenciada sob uma Licença Creative Commons. Você pode copiar, distribuir, exibir, executar, desde que seja dado crédito ao autor original. Você não pode fazer uso comercial desta obra. Você não pode criar obras derivadas.
 
27/04/2017 15h32
SUBSÍDIOS PARA A HISTORIA DO A.V.F.C. (11) - Liga de São Lourenço - 1953 - Um empate espetacular contra o Es

SUMÁRIO


Apresentação

 

Esse jogo faz parte da final do Campeonato da Liga de São Lourenço de 1953, que foi disputada numa melhor de três partidas: a primeira em São Lourenço; a segunda, em Lambari; e a terceira em campo neutro, em Baependi.

Na primeira partida, disputada em São Lourenço, o Águas venceu por 2 x 1, conforme vimos aqui

Nessa segunda, em Lambari, deu-se uma virada espetacular do Águas Virtuosas, que, perdendo por 2 x 0, conseguiu empatar o jogo em 2 x 2.

Vamos lá recordar.

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Um grande time do Águas dos anos 1950

Muitos dos jogadores abaixo, estiveram nessa partida contra o ESPORTE CLUBE SÃO LOURENÇO, em 1953.

Veja:

Águas Virtuosas dos anos 1950. Na foto, entre outros, em pé: Dr. Ferreira, Cunha, Rely, Crisóstomo, Gidão, João André, Lilico, Vaca e Manoel Correia . Agachados: Professor Raimundo, Quinzinho, Nenê Nascimento, Laerte, Hélio Fernandes, Pinellinho e Chico de Castro.


Uma formação do Esporte C. S. Lourenço dos anos 1940-50

Um instantâneo do time do Esporte Clube São Lourenço, dos anos 1940-50. Na foto, entre outros, Mauro, Ferrer, Jair, Rui, Casca, Elias, Pinellão Marujo. 

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O relato da partida

O número 18, de 4 de novembro de 1953, de O ÁGUAS VIRTUOSAS, traz o relato do jogo, assinado por Carlos Rodrigues Eufrásio, professor de história do Ginásio de Lambari:

 

Reprodução: N. 26, de 27, dez, 1953

Confira:


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Veja também

Veja também os jogos seguintes:

  • a primeira partida em São Lourenço - aqui
  • a final em Baependi - aqui

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Referências

  • Semanario O ÁGUAS VIRTUOSAS, n. 18, de 4 de novembro de 1953 - Disponível em: http://memoria.bn.br

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Publicado por Guimaguinhas em 27/04/2017 às 15h32
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26/04/2017 04h01
SUBSÍDIOS PARA A HISTORIA DO A.V.F.C. (10) - Liga de São Lourenço - 1953 - O primeiro jogo da melhor de três partidas

SUMÁRIO


Apresentação

Nos anos 1950, circulou em Lambari o semanário O ÁGUAS VIRTUOSAS, de propriedade de ARISTIDES MOREIRA DE SOUZA, antigo tabelião civil, tendo como redator-chefe o então prefeito JOÃO LISBOA JÚNIOR e como redator URAL PRAZERES.

Pois bem, nos 26 números que circularam entre julho e dezembro de 1953, vamos encontrar inúmeros registros para compor a nossa série  SUBSÍDIOS PARA A HISTÓRIA DO ÁGUAS VIRTUOSAS F. C., que vimos divulgando no site GUIMAGUINHAS (Índice da Série - aqui).

É o que veremos a seguir.


O Semanário O ÁGUAS VIRTUOSAS

Lançado como substituto do antigo semanário lambariense A PELEJA, O ÁGUAS VIRTUOSAS vai nos ajudar a recordar importantes episódios do futebol de Lambari.


 


Entre os fatos mais marcantes, podemos citar:

  • o grande time do Águas Virtuosas dos anos 1950, no qual brilharam craques de primeira grandeza, tais como Crisóstomo, Pinelinho, Gidão, Alair e Quinzinho;
  • algumas vitórias espetaculares;
  • a presença da grande torcida, uma marca do Águas Virtuosas;
  • os gols de Quinzinho Modesto, do maior artilheiro da história do clube (veja aqui), e, também,
  • a controvertida final do campeonato da Liga de São Lourenço do ano de 1953, disputada numa melhor de três partidas, em que o Águas Virtuosas terminou como vice-campeão.

O Águas Virtuosas vence o returno do campeonato

No domingo, 11 de outubro de 1953, o Águas Virtuosas foi jogar em Itajubá, tendo de vencer, ou, se perdesse ou empatasse, torcer por um resultado negativo do União. Mas venceu o jogo por 2 x1, sagrando-se campeão do returno, postando-se para decidir o campeonato contra o Esporte de São Lourenço, numa melhor de três partidas.

Abaixo a notícia dada pelo prof. Carlos Rodrigues Eufrásio, no O ÁGUAS VIRTUOSAS, de 11,out, 1953, no qual ele faz também uma avaliação dos jogadores.

Destaque para QUINZINHO - "foi o maior homem do Águas, uma verdadeira máquina".

Confira:



Da esquerda para direita: entre outros: Quinzinho, Val, Alair, Hélio, Nenê, Gidão, João André, Crisóstomo (cabeça baixa) e Nicola.


Esporte Clube São Lourenço, nosso tradicional adversário, é aquele do qual já falamos em posts anteriores, como estes:


Um instantâneo do time do Esporte Clube São Lourenço, dos anos 1940-50. Na foto, entre outros, Mauro, Ferrer, Jair, Rui, Casca, Elias, Pinellão Marujo. 


Esse jogo faz parte da final do Campeonato da Liga de São Lourenço de 1953, que foi disputada numa melhor de três partidas: a primeira em São Lourenço; a segunda, em Lambari; e a terceira em campo neutro, em Baependi.

Nessa primeira partida, disputada São Lourenço, no dia 25 de outubro de 1953, o Águas venceu por 2 x 1.

É o que vamos ver.


Havia grande expectativa para a primeira partida da decisão do campeonato- Fonte: O ÁGUAS VIRTUOSAS, de 18, out, 1953

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A resenha do jogo

O número 17, de 25 de outubro de 1953, de O ÁGUAS VIRTUOSAS, traz o relato do jogo, assinado pelo prof. Carlos Rodrigues Eufrásio.

Reprodução: N. 26, de 27, dez, 1953


 

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Veja também

Veja também os jogos seguintes:

  • a segunda partida em Lambari - aqui
  • a final em Baependi - aqui

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Referências

  • Semanário O ÁGUAS VIRTUOSAS,  n. 17, de 18 e 25 de outubro de 1953 - Disponível em:  http://memoria.bn.br

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Publicado por Guimaguinhas em 26/04/2017 às 04h01
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21/04/2017 07h59
AS ÁGUAS VIRTUOSAS DE LAMBARY (4)- Antigos manuais de medicina popular

Ilustração: Referência à Água virtuosa da Campanha (a nossa água mineral), no Formulário ou Guia Médico do Brasil,  de Pedro Luiz Napoleão Chernoviz, 6a. edição, 1864


SUMÁRIO


Apresentação

Num domingo a farmácia cumpria seu plantão, estava muito quente e, depois do movimento da missa das nove, já quase nenhum freguês havia na botica, e o tempo passava lentamente, numa molengação só, com a modorra domingueira acometendo a todos, e eu lá, sem pressa, cozinhando o galo, folheando desatento um chernoviz a ver se encontrava notícias dos remédios da roça que a Mãe Véia costumava receitar: um emplastro de mostarda ou um escalda-pé com ervas ou um cataplasma de farinha de mandioca...

Antônio Lobo Guimarães, Menino-Serelepe (1)


Neste post, recordo meus tempos de aprendiz de "farmaceiro", as leituras de um "chernoviz", nas horas vazias de um domingo indolente, na Farmácia Santo Antônio, na companhia de meu pai, O Dé da Farmácia, para falar um pouco das propriedades curativas das águas virtuosas de minha terra.

Vamos lá.

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Antigos manuais de medicina

No Brasil do Século XIX, os conhecimentos da medicina ainda eram incipientes, os médicos escassos e o acesso à escola formal era restrito. Em razão disso, os manuais de medicina popular se tornaram instrumento essencial para disseminar práticas e saberes aprovados pelas instituições médicas oficiais no cotidiano daquela população. Entre esses manuais, destacam-se os elaborados por Chernoviz [5] e Langgaard [6], que reconheceram a estreita relação entre a medicina popular e a medicina científica. [1]

Os manuais desses dois médicos estrangeiros contribuíram para a instrução acadêmica de inúmeros praticantes leigos da medicina: senhores e senhoras de escravos, curandeiros, boticários... [2]

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Manuais mais conhecidos

Elaborados de modo a facilitar a leitura, os manuais de medicina popular continham a descrição das moléstias, bem como os conselhos e medicamentos que deveriam ser empregados em cada uma delas, de fácil formulação e úteis na economia doméstica. [2]

Vejamos alguns deles.

Erário Mineral, de Luís Gomes Ferreira

Editado pela primeira vez em Lisboa, em 1735, constitui um dos primeiros tratados de medicina brasileira escrito em língua portuguesa.

O livro reúne as experiências de práticas médicas realizadas pelo cirurgião-barbeiro Luís Gomes Ferreira na capitania de Minas Gerais. Além de uma descrição pormenorizada dos principais males ali frequentes, o autor também descreve os meios mais eficazes de cura que experimentou e faz um importante inventário dos medicamentos utilizados na época com suas respectivas funções.

Nessa leitura, descobrimos que entre os remédios empregados encontravam-se vários utilizados pelos índios e incorporados pelos paulistas à medicina colonial. Parte preciosa do relato é constituída pelas minuciosas informações sobre as duras condições de vida e de trabalho a que os escravos estavam submetidos, o que facilitava a propagação das doenças. Dois glossários completam e enriquecem ainda mais esta edição, procedendo a um levantamento dos médicos e cirurgiões citados pelo autor. (Scielo) (Disponível aqui)

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Formulário Médico e Pharmacêutico - Theodoro J. H. Langgaard

Theodoro Langgaard (1813-1883) nasceu na Dinamarca, estudou medicina em Kiel, na Alemanha, e em Copenhagen, e veio para o Brasil em 1842, quando foi morar, inicialmente, numa vila da Fábrica de Ferro de Ypanema, bem próxima à cidade de Sorocaba (SP), onde conheceu o dr. Cruz Jobim, então diretor da Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro. Daí se transferiu para Campinas, cidade em que morou até 1870, quando veio para o Rio de Janeiro.

Em 5 de agosto de 1846, já há quatro anos no Brasil, apresentou, à Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro, uma tese para revalidação de seu diploma, dedicada ao dr. Cruz Jobim, na qual defendia a geração espontânea (a). Foi autor do Dicionário de medicina doméstica e popular — que teve duas edições, nas cerca de 1.500 páginas divididas em três volumes — e do Formulário médico — que, tal como o de Chernoviz, era presença obrigatória nas farmácias antes da criação de uma farmacopéia brasileira, e que, mesmo sem ter experimentado a popularidade da obra de Chernoviz, teve três edições.

Eclético e erudito, Langgaard fez a tradução e o prefácio do Atlas de anatomia, de Bock (b), escreveu Sucintos conselhos a jovens mães para o tratamento racional de seus filhos, bem como um tratado intitulado Obstetrícia (c), e ainda uma biografia do naturalista dr. Lund (d). [2]     [Disponível GoogleBooks aqui]

a) Langgaard, Theodoro 1846 Dissertação crítica sobre a geração equívoca. Rio de Janeiro: Faculdade de Medicina. 13 p.

b) Bock, C. E. 1853 Atlas completo de anatomia do corpo humano. Rio de Janeiro: Eduardo e Henrique Laemmert.

c) Menezes, R. O. L. 1934 Minhas memórias dos outros. Rio de Janeiro: J. Olympio. 

d) Langgaard, Theodoro 1883 O naturalista dr. Lund (Peter Wilhelm), sua vida e seus trabalhos. Rio de Janeiro: Laemmert.   

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Formulário ou Guia Médica - Pedro Luiz Napoleão Chernoviz

O doutor Pedro Luiz Napoleão Chernoviz (1812-1881), nome abrasileirado de Piotr Czerniewicz,5 nasceu na Polônia (Lukov) e foi obrigado a sair de seu país, ainda bem jovem, estudante de medicina na Universidade de Varsóvia, por ter participado, em 1831, de um levante contra o domínio russo. Em 1836, participou no combate a uma epidemia de cólera, pelo que foi condecorado pelo governo francês com a medalha de mérito. Em 1837, doutorou-se em medicina pela Faculdade de Montpellier.

No início de 1840, Chernoviz aportou no Rio de Janeiro. No mesmo ano, em dezembro, teve seu diploma reconhecido pela Faculdade de Medicina e foi aceito na Academia Imperial de Medicina, como membro titular. [2]

Aqui escreveu o Dicionário de Medicina Popular e o Formulário ou Guia Médico do Brasil. Este último, lançado em 1841, foi o primeiro manual de terapêutica médica editado no Brasil, e foi dedicado ao Imperador Pedro II. O Formulário ou Guia Médico do Brasil constava de descrição dos medicamentos, propriedades, doses, moléstias para os quais deveriam ser empregados; plantas medicinais indígenas; águas minerais do Brasil; a arte de formular; receitas úteis nas artes e economia doméstica; e apoio a boticários e farmacêuticos.  [3]          [Disponível GoogleBooks aqui]

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Os Manuais de Medicina Popular e o uso terapêutico as águas minerais

No século XIX, dava-se o nome de águas minerais àquelas que vertiam da terra, contendo

...substâncias estranhas à sua natural composição, e em quantidade tal que possam exercer na economia uma ação especial, e dependente da natureza destas substâncias e de suas proporções. (Chernoviz)

No seu Guia Médico do Brasil, Chernoviz trata das seguintes espécies de água mineral: águas acídulo gazosas; águas alcalinas; águas férreas; águas salinas; águas sulforosas.

Langgaard, por sua vez, no Diccionário de Medicina Doméstica e Popular, definiu as águas minerais como aquelas

carregadas mais ou menos de substancias minerais, e que por causa da sua composição química e temperatura mais ou menos elevada, são empregadas como um importante meio terapêutico. [1]

Esse autor dá uma descrição geral sobre as águas, explicando o seu ciclo hidrológico e os seus diferentes estados físicos, fazendo a diferenciação entre a “água do mar”, “água doce”, “água parada”, “água branca”, “água de cal”, “água clorada” e “água destilada”. Essa foi uma das primeiras obras a fazer uma análise mais científica sobre as águas minerais. [1]

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A Água Virtuosa da Campanha nos Manuais de Medicina Popular

 

Guia Médico do Brasil - Chernoviz (6a. edição, 1864)

Na 6a. edição, de 1864, do Formulário ou Guia Médico do Brasil, páginas 399-401, o autor Pedro Luiz Napoleão Chernoviz explana sobre os efeitos medicinais das águas minerais e faz referência à Água virtuosa da Campanha, já considerada, então, a principal água gazosa do Brasil. Como se sabe, esse era o nome por que se conhecia à época a água mineral de Lambari.

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Dicionário de Langgaaard (2a. edição, 1872)

Na edição de 1872 do seu Diccionário de Medicina Doméstica e Popular, páginas 888-89, Langgaard faz também referência à Água virtuosa da Campanha, ou água santa.

Confira:


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Propaganda da Água Virtuosa da Campanha (1883)

Em 1883, no Jornal Correio Paulistano, há duas propagandas da Água Virtuosa de Lambary, — que "adquiriu o nome de virtuosa por suas virtudes", diz o texto. A segunda propaganda faz referência ao Dicionário de Langgaard.

Como se recorda, as Águas Virtuosas de Lambary foram as primeiras a ser descobertas no Sul de Minas, em 1780. (Veja aqui).

Confira:

Reprodução: Correio Paulistano, fev, 1883

Reprodução: Correio Paulistano, set, 1883

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Literatura sobre as propriedades curativas das águas virtuosas de Lambari

Em outro post, já falamos sobre as principais obras que tratam de aspectos médicos das águas de Lambari. (aqui)


         

          

  • MILEO, José Nicolau. A água mineral de Lambari - contribuição para o seu conhecimento. Cruzeiro, SP, Gráfica Editora Liberdade, 1968.
  • CHAVES, Benício. Água de Lambary. Lambary, MG : Pinto & Cia., 1932
  • LISBOA JÚNIOR, João. Aplicações terapêuticas das águas minerais de Águas Virtuosas do Lambary e épocas de estação. 1928
  • MOURÃO, MÁRIO. Tratamento hydro-mineral das moléstias do fígado. Edição Rodrigues & Cia., Rio de Janeiro, 1939. [Veja-se o  Capítulo III - Indicações das águas acidulo-gazozas de Caxambu e Lambary, São Lourenço e Cambuquira, no tratamento das moléstias do fígado.]

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Referências

[1] SCHRECK & MARQUES. SCHRECK , Rafaela Siqueira Costa ; MARQUES, Rita de Cássia. Águas Minerais: De Medicina Popular às Práticas Integrativas de Saúde do SUS [Artigo] - Disponível aqui

[2] GUIMARÃES, Maria Regina Cotrim. Chernoviz e os manuais de medicina popular no Império. [Artigo técnico] - Disponível aqui

[3] PORDEUS & PAIVA. PORDEUS, Isaela Almeida & PAIVA, Saul Martins. Odontopediatria. São Paulo, Asrtes Médicas, 2014 - Disponível aqui

[4] FERREYRA, Luis Gomes. Erário Mineral. Org. Júnia Ferreira Furtado. Belo Horizonte, Fundação João Pinheiro, Centro de Estudos Históricos e Culturais; Rio de Janeiro, Fundação Oswaldo Cruz, 2002 - Disponível aqui

[5] CHERNOVIZ, Pedro Luiz Napoleão. Formulário ou Guia Médica. Paris, Casa do Autor, 1864 - Disponível aqui

[6] LANGGAARD, Theodoro J. H. - Novo Formulário Médico e Farmacêutico. Rio de Janeiro, Eduardo & Henrique Laemmert, 1872 - Disponível aqui

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2735.jpg (*) Esta trecho faz parte do livro Menino-Serelepe - Um antigo menino levado contando vantagem, uma ficção baseada em fatos reais da vida do autor, numa cidadezinha do interior de Minas Gerais, nos anos 1960.

O livro é de autoria de Antônio Lobo Guimarães, pseudônimo com que Antônio Carlos Guimarães (Guima, de Aguinhas) assina a série MEMÓRIAS DE ÁGUINHAS. Veja acima o tópico Livros à Venda.

NOTAS

  • Chernoviz: Refere-se ao dr. Chernoviz, médico autor de um antigo livro de receitas de remédios. Por extensão: vademecum                                    [Voltar ao tópico]
  • Mãe Véia - Apelido pelo qual os netos designavam minha avó paterna: Margarida Augusta Guimarães, que herdou de sua mãe, D. Chiquinha, os dons de benzedeira.

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Publicado por Guimaguinhas em 21/04/2017 às 07h59
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17/04/2017 06h13
AS ÁGUAS VIRTUOSAS DE LAMBARY (3) - As "águas santas" e o culto a Nossa Senhora da Saúde

Ilustração: Primeira igrejinha de N. S. da Saúde, em Lambari, MG - Primeiras décadas dos anos 1800


SUMÁRIO

 


Apresentação

(Lambari) nasceu, cresceu e vive à sombra de sua água mineral, e, na época em que apareceu a água, o seu aparecimento deveria ter repercutido em toda comarca do Rio das Mortes e em toda Capitania de Minas Gerais como um acontecimento de grande significação.

José Nicolau Mileo - Subsídios para a história de Lambari


No texto abaixo, vão ligeiras informações sobre a água, o seu uso pelos seres humanos, os poderes a ela atribuídos e as crenças e rituais disso derivados, nos campos da saúde, da cultura e da religião, desde a pré-história até os dias de hoje.

Por fim, recordamos que o culto a Nossa Senhora da Saúde, em Lambari, e a construção da primitiva ermida a ela dedicada, e da antiga igreja e da nova matriz que vieram a seguir, estão ligados às virtudes terapêuticas das águas minerais.

Vamos lá.

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Águas e locais sagrados

Lazzerini & Bonotto, no artigo Fontes de águas “milagrosas” no Brasil [1], anotam que, desde a pré-história, a mais de um milhão de anos, encontram-se registros de benefícios emocionais, mentais e fisiológicos produzidos por substâncias minerais e processos geológicos, como usos curativos de argilas e águas. 

Na atualidade, prosseguem os autores citados, ocorrem "fontes sagradas" na Europa, Ásia, América, em países como: Irlanda, Grécia, Israel, Índia, Tibete, Arábia Saudita, França, Turquia, Bélgica, EUA.


  

Gruta e fonte em Lourdes (França), onde N. S. de Lourdes apareceu à menina Bernadette, em 1858

Narra-se que a aparição (Virgem Santissima) convidou Bernadette a cavar o chão e beber a água da nascente que encontrou lá. Como a notícia se espalhou, essa água foi administrada em pacientes de todos os tipos, e muitas curas milagrosas foram noticiadas. (Fonte: Wikipedia)


Na Bíblia, vamos encontrar referências a locais/águas sagrados. Por exemplos:

  • ANTIGO TESTAMENTO - POÇO - Beer - De lá prosseguiram até Beer, o poço onde o Senhor falou a Moisés: “Reúne o povo e Eu lhe darei água!” [Números 21,16] (Beer = Estação dos israelitas além de Arnom – assim chamada por causa do ‘poço’ cavado pelos príncipes do povo.)

Jesus curando o paralítico, no Tanque de Betesda (Fonte: Rude Cruz - aqui)

  • NOVO TESTAMENTO - TANQUE de Betesda - Ora, em Jerusalém, próximo à porta das ovelhas, há um tanque, chamado em hebraico Betesda, o qual tem cinco alpendres. Nestes jazia grande multidão de enfermos, cegos, mancos e ressicados (esperando o movimento da água.)  (Porquanto um anjo descia em certo tempo ao tanque, e agitava a água; então o primeiro que ali descia, depois do movimento da água, sarava de qualquer enfermidade que tivesse.) [João 5, 2-4]

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Culto à água no Brasil

No Brasil, há inúmeras ocorrências históricas de culto à água, como estas: vestígios arqueológicos no Rio Grande do Norte e Ceará sugerem simbologias de culto à água; populações primitivas ou tradicionais (indígenas e comunidades de pescadores, caiçaras, sertanejos, etc.) sempre renderam algum tipo de culto às águas e seus seres, e assim também os cultos afro-brasileiros; e, desde a vinda dos jesuítas, ocorreram inúmeros registros de relações das águas com a religião católica, como os que seguem abaixo:  [1] [2] 

  • locais de purificação e cura: diversos locais que possuem alguma fonte ou água santa, onde os romeiros bebem água, enchem garrafas, lavam o rosto e até tomam banho; Bom Jesus de Iguape, Bom Jesus dos Matozinhos e Canindé; 

Em Canindé, o roteiro devocional inclui, além da Basílica, outros pontos importantes, como a estátua de São Francisco, inaugurada em 2005. Possuindo 30 metros de altura, está localizada no morro do Moinho, dialogando agora com o símbolo maior que é a Basílica, sendo um dos lugares mais visitados na cidade (Fonte: ufrj.br/16/teses/775268.pdf)

  • práticas religiosas iniciadas depois que imagens santas milagrosas foram encontradas nos rios: N. Sra. Aparecida, N. Sra. de Nazaré, Bom Jesus de Pirapora e outras nas águas do mar, como em Bom Jesus de Iguape; e  [3]

Em 1918, Trajano Vaz retratou o encontro da imagem do Senhor Bom Jesus de Iguape, na Praia do Una, Juréia, no ano de 1647. (Fonte: Wikipedia - aqui)

Em Tiradentes (MG), fica Águas Santas, onde se ergue a Igreja de N. S. da Saúde, cujas águas medicinais, descobertas em meados do Século XIX, brotam do sopé da Serra de São José (Fonte: IHGT - aqui)

Vê-se, assim, que, como em todo mundo, no Brasil também é historicamente popular a crença no poder miraculoso de certas fontes, chamadas de milagrosas, santas, sagradas, virtuosas ou mágicas. [1]

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A expressão ÁGUAS VIRTUOSAS

Além da importância fundamental ao meio ambiente, as águas de fontes santas, milagrosas ou curativas possuem estreita correlação com a origem, história, tradição, saúde, religião, ciência e economia humana.

Fontes de águas “milagrosas” no Brasil - Fábio Tadeu Lazzerini e Daniel Marcos Bonotto


A expressão Águas Virtuosas designava as propriedades curativas e medicamentosas das águas minerais e sua ação terapêutica e preventiva em face de diversas doenças. Expressões como água santa, milagrosa ou curativa também foram usadas para nomear as águas minerais em diversas regiões do País.  [1] 

Em Minas Gerais, dois filões geológicos de águas virtuosas, constituindo cada um deles uma bacia subterrânea independente, brotam do Planalto da Mantiqueira: Lambari e Cambuquira — Caxambu e São Lourenço. [4] 

Note-se que expressão águas virtuosas foi associada também às águas de Caxambu e Cambuquira, descobertas posteriormente às de Lambari. As Águas Virtuosas de Baependy (depois Caxambu) foram descobertas em 1814, e as Águas Virtuosas de Cambuquira, nos anos 1860.

Por sua vez, a descoberta das Águas Virtuosas de Lambary ocorreu anos antes, em 1780/90, sendo elas designadas inicialmente por Águas Virtuosas de Campanha do Rio Verde, Águas Santas da Campanha e Águas Virtuosas da Campanha. Quando foram descobertas, eram conhecidas em todo território nacional apenas duas fontes hidrominerais: a fonte do Cipó, na Bahia, descoberta em 1730, e a fonte de Caldas Novas, em Goiás, descoberta em 1737. [5]


Reprodução: Jornal do Comércio, 5, dez, 1843


Informa José Nicolau Mileo que a descobertas dessas fontes traçou os destinos do atual município de Lambari, 

que nasceu, cresceu e vive à sombra de sua água mineral, e, na época em que apareceu a água, o seu aparecimento deveria ter repercutido em toda comarca do Rio das Mortes e em toda Capitania de Minas Gerais como um acontecimento de grande significação, já que até quando foi descoberta assinalavam-se em todo território nacional apenas duas fontes hidrominerais: a fonte do Cipó, na Bahia, descoberta em 1730, e a fonte de Caldas Novas, em Goiás, descoberta em 1737.  [5] 

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A devoção a Nossa Senhora Aparecida e a descoberta da “Água Santa” em Lambari

Mais tarde, passava pelo lugar uma estrada, e o boiadeiro ou tropeiro, parava, chegava reverente até a nascente da ÁGUA SANTA, bebia, punha um pouco sobre a cabeça nua, banhando os cabelos e a testa, e enchia uma botija, que levava com escrupuloso cuidado para operar a uma, a 50, 80 e cem léguas de distância.

Extraído de A LENDA DAS ÁGUAS VIRTUOSAS, texto atribuído a Américo Werneck (aqui)


Como se sabe, foi quando da passagem de D. Pedro de Almeida Portugal, então Governador de das Províncias de São Paulo e Minas do Ouro e futuro Conde de Assumar, pela Vila de Guaratinguetá rumo a Vila Rica, em 1717 (*), que, segundo a tradição devocional, se deu o  achado por pescadores da imagem de Nossa Senhora da Conceição, posteriormente nomeada Nossa Senhora Aparecida. [13]

Tempos depois, Nossa Senhora da Conceição Aparecida passou a ser cultuada em ritos domésticos, em pequenos altares e oratórios [9], prática essa que se estendeu por diversos lugares, com fama da Senhora levada por tropeiros, sertanistas e mineradores. [13]

(*) - Neste ano, em outubro, completam-se 300 anos da aparição da imagem da Virgem Maria.


Imagem de Nossa Senhora Aparecida, que apareceu para os pescadores Domingos Garcia, Felipe Pedroso e João Alves em outubro de 1717. (Wikipedia - aqui)


A disseminação das capelas dedicadas à Nossa Senhora Aparecida coincide com a notícia do achado das águas minerais na região de Lambari [9], visto que de 1780 a 1790 situa-se a década provável da descoberta das águas. [7]

De fato, em 1780

Velhas memórias, surgidas de poeirentos alfarrábios, mostram-nos que a descoberta da preciosa fonte data do fim do século passado [Século XVIII]. Segundo uma dessas memórias, trazidas a lume pelo Dr. Pires de Almeida, foi em 1780 que o proprietário daquelas terras, Antônio d'Araújo Dantas, deu fé da Água. [16]

Em 1780, tais águas eram procuradas por moradores da Comarca e viajantes de tropa, atraídos pelas suas qualidades específicas. [14]

Mais tarde [a partir de 1780/90] o povo lhe reconhece as propriedades medicinais e espontâneo lhe vêm o nome: Águas Santas, ou Águas Virtuosas[16]

Circulando pela Estrada Velha, ou Caminho Velho [que ligava a Corte (Rio de Janeiro) à cidade de Campanha, passando por Guaratinguetá], tropeiros, sertanistas, mineradores, boiadeiros e outros viajantes trouxeram à Região do Lambari o achado da Senhora Aparecida, e provavelmente foram esses mesmos que levaram às localidades por onde passavam as “curas milagrosas” produzidas pela “água santa”, por intercessão de Nossa Senhora da Saúde. [9]

  • NOTA - Além da aproximação histórica supracitada, entre Aparecida do Norte e Águas Virtuosas do Lambary, há uma outra curiosidade: tanto o santuário de Aparecida como a Igreja de Lambari foram projetados pelo mesmo arquiteto: Calixto de Jesus Neto.

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Àguas Virtuosas de Lambary e Nossa Senhora da Saúde

Obtida a licença necessária, erigiu uma linda e rústica capela, dedicada à Nossa Senhora da Saúde, e, no meio de numerosos convidados, efetuou-se o enlace feliz.

Extraído de A LENDA DAS ÁGUAS VIRTUOSAS, texto atribuído a Américo Werneck (aqui)

 


O culto a Nossa Senhora da Saúde, em Lambari, como decorre da tradição devocional, está claramente associado às virtudes terapêuticas das águas minerais. Alguns registros documentais e a criação de uma lenda – A lenda das Águas Virtuosas – ajudam-nos a resgatar esse aspecto singular da história de nossa cidade.

A lenda se baseia no uso da água virtuosa por uma jovem de nome Cecília, que, curada de seus males, pediu ao pai que erguesse uma capelinha em homenagem a Nossa Senhora da Saúde. [15] Note-se que o fundo religioso dessa história – a fé na Virgem Santíssima e os poderes curativos atribuídos às águas virtuosas – deve ter vindo naturalmente da tradição oral que a religiosidade popular teceu nos anos seguintes à descoberta das águas santas, dentre as muitas histórias que circulavam acentuando seus poderes curativos. [9]

E as razões históricas encontram-se num pedido da Câmara da Campanha da Princesa, para construção de uma ermida, nas proximidades das nascentes das "águas santas" e num grupo de católicos devotos que conceberam a ideia de erguer uma igreja sob a invocação de Nossa Senhora da Saúde.

Vejamos abaixo os dois casos.


  • A Lenda das Águas Virtuosas

Diz uma lenda corrente nos primórdios de Águas Virtuosas que a devoção a Nossa Senhora da Saúde começou quando: [8] [9]

(...) por volta do ano de 1870, na cidade de Campanha, um africano de nome Antônio de Araújo Dantas revelou ao moço de nome Tancredo a existência de águas curativas, que existiam atrás da serra, numa nascente perto de um riacho. 

Tancredo era noivo da moça de nome Cecília, filha de Antônio Alves Trancoso, fazendeiro de Passos, que submetia a filha a longo tratamento médico, mas já sem esperança de curá-la.

Tancredo fala-lhe das águas, nas curas maravilhosas de que tinha notícia, e insiste com o futuro sogro para ir ao lugar e levar a filha. Trancoso já desanimado com o tratamento médico, resolve buscar a cura por meio das águas virtuosas.

Aqui ficou por algum tempo e sua filha com o uso das águas durante uns 20 dias apenas, nada mais sentia de seus antigos males. 

Cecília radicou-se ao lugar por uma afeição de grande agradecimento e, devota que era de Virgem Maria, pediu a seu pai para construir uma capela, sob a evocação de Nossa Senhora da Saúde. Trancoso voltou a Campanha, obteve autorização do Eclesiástico local e construiu a igreja, na qual, após a bênção pelo Capelão da Campanha, se realizou o seu casamento com Trancredo.

Isso reza a lenda; no entanto, a realidade histórica é outra. Com efeito, o Monsenhor José do Patrocínio Lefort escreveu:

Sem fundamento algum, a não ser a imaginação fantástica de um contista, é a lenda de Cecília, filha de Antônio Alves Trancoso, [que] teria feito uso da água e se curado de um mal grave. É estoria de Werneck para efeito de propaganda, pois não existia a família Trancoso nem em Passos nem no Sul de Minas. [A sublinha é do original.] [7]

NOTA: Essa lenda encontra-se também nestes textos:

  • MARTINS, Armindo. Lambari - A cidade das Águas Virtuosas. 1a. edição, 1949, p. 25 (numa forma resumida); e
  • SITE GUIMAGUINHAS - Memórias de Aguinhas (19a) - A Lenda das Águas Virtuosas -  [Supõe-se seja essa a versão atribuída a Américo Werneck] - Disponível (aqui)

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A Ermida de Águas Virtuosas da Campanha

Os registros históricos reportam-se à criação de uma ermida, nestes termos:

A Câmara de Campanha em 24 de janeiro de 1827 oficiara ao Visconde de Caeté, então presidente da Província de Minas Gerais, encarecendo a necessidade de se construir "uma pequena Ermida para se dizer a Missa ao Povo" e, em 1832, a mesma Câmara propôs que se marcasse "o lugar próprio para a fundação do Templo que deverá fazer para a Povoação".  [10] [11]

Mas, por aquela época, eram precários tanto os caminhos que levavam às fontes das águas quanto as habitações e construções da localidade, e só mais tarde os poderes constituídos de Campanha mandaram mudar e atalhar muito próximo das fontes o caminho para o Rio de Janeiro (Estrada Geral), com o que se deu o crescimento do arraial e a construção da citada ermida. [17]

De fato, em 1830, separa-se uma área patrimonial, dentro da qual, em 1832, foi escolhido um trecho para a construção de um templo dedicado a Nossa Senhora da Saúde. Mas a ermida só aparece em 1837, como registrou o memorialista Armindo Martins:

A fundação da Capela da atual Lambari, naquele tempo Águas Virtuosas da Campanha, foi levada a efeito, depois de 1837. Seu primeiro capelão foi o Cap. Pe. Inácio Barbosa Martins, que pontificou de 1835 a 1841.  [11]

Quatro anos depois, ela foi ampliada pelo vigário da Paróquia do Senhor Bom Jesus de Matozinhos do Lambari. A área no entorno da ermida foi loteada, os terrenos vendidos e grande foi a afluência dos visitantes à procura de saúde. [7]


A Igreja das Águas Virtuosas

Em substituição à primitiva igrejinha, foi construída a primeira matriz dedicada a Nossa Senhora da Saúde, cujas obras iniciaram em 1853 e terminaram no transcurso da década de 1870.  [18]

A iniciativa da obra deveu-se a habitantes da povoação de Águas Virtuosas, [que] “conceberam a ideia de construir uma capela sob a invocação de Nossa Senhora da Saúde (...) e deliberaram promover uma subscrição para a ereção do templo”. Para tanto, “criaram a mesa administrativa composta dos Srs. Bento Antônio dos Santos, presidente e tesoureiro, Manoel Joaquim do Nascimento, secretário, Manoel Izidoro de Carvalho, José Francisco de Oliveira e José Teixeira Fortes, procuradores”.  [12]

Desde 1843 até 1861,

(...) conseguiram assinaturas na importância de 3:290$, tendo sido paga a quantia de cerca de 1:000$. Há pagar-se a quantia de cerca de 2:287$, além de várias promessas de ornamentos para a igreja, de um sino, de um missal, etc.  [12]

 Até meados dos anos 1870, as obras não haviam terminado:

(Águas Virtuosas da Campanha) possui uma boa igreja, ainda não concluída, dedicada a Nossa Senhora da Saúde e que foi construída com esmolas dos fiéis, sendo as mais avultadas as que foram ofertadas pelos comendadores Lucas Antônio Monteiro e José de Souza Breves. [19]

Por essa época, os diretores das obras da igreja eram: Vigário João Batista das Neves (pontificou de 1871 a 1877), Antônio Joaquim do Nascimento e Antônio Pereira de Gouveia


Em 1850 a assembleia provincial elevou a povoação de Águas Virtuosas à categoria de freguezia, servindo de sede a de Lambary [atual Jesuânia], até que se fizesse a igreja das Águas Virtuosas, para o que decretou 2:000$. [12]

 


Reprodução: A Atuaclidade - 24, ago, 1881

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Referências

  1. LAZZERINI & BONOTTO. Fábio Tadeu; Daniel Marcos. Fontes de águas “milagrosas” no Brasil - [Artigo] Ciência e Natura, v. 36 Ed. Especial II, 2014, p.559-572 - Disponível  (aqui)
  2. BARRETO, K. S. R.; COELHO, L. V.; NASCIMENTO, M. M. A apropriação da água em diferentes períodos: fonte de consumo na pré-história e culto religioso no presente. In: ENCONTRO ESTADUAL DE HISTÓRIA DO CEARÁ, 13. 2012, Fortaleza-CE. Anais... Fortaleza-CE, 2012. Apud LAZZERINI & BONOTTO, 2014.
  3. DIEGUES, A. C. Água e cultura nas populações tradicionais brasileiras. In: ENCONTRO INTERNACIONAL SOBRE GOVERNANÇA DA ÁGUA, 1. 2007. São Paulo-SP. Anais... São PauloSP, 2007. Apud LAZZERINI & BONOTTO, 2014.
  4. MOURÃO, Mário. Tratamento hydro-mineral das molésticas do fígado. RJ, Jornal do Comércio, 1939, p. 37
  5. MILEO, José N. Subsídios para a história de Lambari. Guaratinguetá, SP : Graficávila, 1970, p. 13.
  6. MILEO, José N. Subsídios para a história de Lambari. Guaratinguetá, SP : Graficávila, 1970, p. 56.
  7. LEFORT, José do Patrocínio. A Diocese da Campanha. Belo Horizonte : Imprensa Oficial de MG, 1993, p. 206.
  8. CARROZZO, João. História Cronológica de Lambari - Nascida Águas Virtuosas da Campanha. Piracicaba, SP, Ed. Shekinah, 1988, págs. 47-49.
  9. CARVALHO, Roberto Junho. A lenda de Lambari por uma perspectiva semiótica: construção de sentido, origens e ideologia. Dissertação (Mestrado) – Universidade Vale do Rio Verde (UninCor), Três Corações, 2015. Disponível (aqui)
  10. 8o. ANUÁRIO ECLESIÁSTICO - Diocese da Campanha - 1946 - págs. 15 e 16 - Apud CARROZZO, João. 1988, págs. 47-49.
  11. MARTINS, Armindo. Lambari - A cidade das Águas Virtuosas. 1a. edição, 1949, p. 25
  12. O SUL DE MINAS - n. 91 - 13, out, 1861 - Apud CARROZZO, João. 1988, págs. 54 a 57
  13. SOUZA, Juliana Beatriz Almeida de. Virgem mestiça: devoção à Nossa Senhora na colonização do Novo Mundo. Tempo, v. 6, n. 11, 2001. Apud CARVALHO, Roberto Junho. 2015. 
  14. CARROZZO, João. Lambari (Outrora: Cidade de Águas Virtuosas da Campanha) - 3ª. edição, 1985, p. 24 
  15. CARROZZO, João.História Cronológica de Lambari - Nascida Águas Virtuosas da Campanha. Piracicaba, SP, Ed. Shekinah, 1988, págs. 35-40
  16. BUENO, Júlio. Almanach do Município de Campanha – Typografia do Monitor Sul-Mineiro, 1900, págs. 93 
  17. 8º. Anuário Eclesiástico da Diocese da Campanha, 1946, p. 16. Apud CARROZZO, 1985, p. 21
  18. MILEO, José Nicolau. Ruas de Lambari. Cruzeiro, SP, Graficávila, 1970, p. 45 
  19. Almanach Sul-Mineiro para 1874. Bernardo Saturnino da Veiga. Campanha,MG, Typographia do Monitor Sul-Mineiro, 1874

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Publicado por Guimaguinhas em 17/04/2017 às 06h13
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