Guimagüinhas
Memórias familiares e de minha terra natal
Meu Diário
03/05/2015 21h55
MEMÓRIAS DE AGUINHAS - Congadas de antigamente

SUMÁRIO


Introdução

Neste ano de 2015, serão comemorados os 100 anos das Festas de Congadas de Lambari (MG), conforme anunciado na página da internet da Prefeitura Municipal de Lambari (aqui).

Assim, neste post vamos recordar um pouco das Congadas de antigamente de nossa terra. Vamos lá!

Voltar


Uma música famosa feita por Fernando Dias para nossas Congadas

Inicialmente, é bom relembrar uma música de congada, feita pelo compositor lambariense Fernando Dias (autor de Poema, bolero de sucesso internacional.) (Veja aqui)

Trata-se de uma música que todos conhecemos pelo nome de São Benedito, e que é tocada em nossas festas desde os anos 1960. A origem dessa música, conta João Ribeiro (João Vital), violonista lambariense que foi parceiro de Fernando Dias (aqui), se deu do seguinte modo:

No início dos anos 60, em Lambari, durante um ensaio de Congadas, no bairro Campinho, estavam Fernando Dias e João Ribeiro, com diversos amigos, conversando e cantando no Bar do Azarias. Dali a pouco — diz João Ribeiro — Fernando apanhou uma caixa de fósforos e começou a batucar, pediu a João que tomasse do violão e desse o tom de congada, e soltou o refrão que se tornaria famoso: 

Oilê, Oilá, meu São Benedito mandou me chamar /

Vai o Rei, vai a Rainha, não demora eu vou pra lá...


Essa música, com o título de Princesa Izabel, foi gravada por Luizinho, Limeira e Zezinha, nos anos 1960, e  consta deste LP do trio:

 


 Princesa Izabel foi também gravada por Sérgio Reis, como está neste vídeo no Youtube(aqui)

Voltar


Convite das Congadas de 1977

Programa das Congadas, Lambari, 1977

Voltar


Salvando São Benedito

Uma tradição de nossas Congadas é a visita que fazem à Igrejinha de São Benedito, no bairro Vila Nova, por ocasião da festa anual desse santo, em Lambari. Nesses dias, os termos costumam cantar este refrão:

São Benedito está triste na bandeira /Seus olhos correm água / 

Que cheira a flor de laranjeira 


Congadas na Festa de São Benedito, Vila Nova, em 1939

   

Congadas com a bandeira de São Benedito, na Igrejinha da Vila Nova

  

Levantamento do mastro na Igreja de São Benedito (Lambari, MG)

Voltar


Em Jesuânia

Zé Rosa e terno, em Jesuânia

Voltar


Na Aparecida do Norte

Terno de Zé de Souza, em visita a Aparecida do Norte, anos 1960

Voltar


Fotos

Bandeira de São Benedito

​Congadas - Terno do seu Zé Marques

Terno do seu Zé Marques

A partir da esquerda: Emérson, seu Zé Rosa e seu Zico


Referências

Com informações de João Ribeiro e José de Souza. Fotos: Museu Américo Werneck e José de Souza.

Voltar


 

Publicado por Guimaguinhas
em 03/05/2015 às 21h55
 
03/05/2015 20h40
MEMÓRIAS DE AGUINHAS - Recordações de um terno de Congadas

Ilustração: Seu Zé de Souza e o violão, instrumento que aprendeu a tocar sozinho (Vídeo)


SUMÁRIO


Introdução

A propósito do 13 de Maio que se aproxima, vamos recordar um pouco da história do terno de Congadas de Seu José de Souza, de 92 anos, ele que é o veterano de nossas festas populares de Congadas e Dia de Reis.

Vamos lá!


O terno de Zé de Souza

 Seu José de Souza começou cedo nas Congadas, na época dos ternos de Joaquim Baiano e Zé Sabino. Tocava caixinha, cavaquinho, e ele mesmo fazia instrumentos de percussão com couro de cabrito para os membros da congada. Depois, aprendeu violão e violino, tudo de ouvido. 

Voltar


Três ternos tradicionais de nossa cidade

Mais tarde, montou seu terno, que ao lado dos ternos de Zé Vicente e Zé Marques abrilhantaram nossas festas populares por décadas.

    

Seu Zico e Zé Marques, expressivas figuras de nossas Congadas

Voltar


As comidas

Zé de Souza conta que para custear o desfile das Congadas corria uma lista de ajuda pela cidade e muita gente colaborava — pessoas comuns, autoridades, comerciantes, e algumas dessas faziam doação em gêneros: arroz em casca, feijão, açúcar. Por essa época a Prefeitura não ajudava com recursos financeiros.

Ele trabalhava de pedreiro, garçon e ajudante de cozinha no Hotel Ideal, e todo ano, com ajuda da mulher D. Elisa, cozinhava para os membros das congadas. Eram paneladas e paneladas de arroz, feijão, angu, carne, e bateladas de doces — arroz doce, doce de cidra, doce de abóbora — e um licorzinho de figo especial.

Voltar


Fotos

 

Aos 92 anos, Zé de Souza não participa mais das Congadas, mas sempre tem à mão o violão e o violino


              

Ensaio do Terno de Zé de Souza. Na foto 1, Carlos, filho de Zé de Souza


O terno de Zé de Souza preparando-se para desfilar

  

Zé de Souza comandando o ensaio de seu terno

Voltar


Vídeos

Seu José de Souza, que comandou um dos mais tradicionais ternos de Congadas da cidade de Lambari (MG), aos 92 anos, tocando seu violão e soletrando letras antigas, ou afinando o velho violino, saudoso do ofício de tantos anos.

  • Youtube (1) - aqui
  • Youtube (1) - aqui

Voltar


Agradecemos a José de Souza e seus familiares pela gentileza das fotos e da entrevista.


NOTA DE FALECIMENTO

Seu José de Souza faleceu na madrugada do dia 29 de outubro de 2019.


Voltar

 

 

Publicado por Guimaguinhas
em 03/05/2015 às 20h40
 
10/04/2015 07h45
MEMÓRIAS DE AGUINHAS - Werneck e o burro Zacarias

Ilustração: Maria Werneck, primogênita de Américo Werneck, e o burro Zacarias


Já publicamos aqui no GUIMAGUINHAS diversos posts sobre Américo Werneck, como se pode ver nesta Série (aqui).

E, como se sabe, coube a Werneck — o primeiro prefeito da cidade — a construção das obras fundadoras de Águas Virtuosas — cassino, lago, cascata do lago, farol, parque novo. (aqui)

E deve-se também a ele a demanda Werneck X Estado de Minas, que se deu em face da rescisão do contrato de arrendamento da estância, efetuado em 1912 entre ele e o Governo de Minas (aqui). Por causa desse litígio, Werneck se afastou de Lambari e diversos projetos que idealizara para a estância não se concretizaram.

Pois bem, à vista desses fatos históricos, neste post vamos registrar algumas críticas feitas a Werneck, e bem assim uma autocrítica que ele fez em razão do insucesso de seus planos para Águas Virtuosas. Vejamos.


Críticas

As supracitadas obras realizadas por Werneck em Águas Virtuosas tratava-se de um ambicioso plano de tornar a estância um centro balneário de reputação internacional, nos moldes de uma Vichy, ou Carlsbad, ou Aix-les-Bains — como disse Werneck na discurso de inaguração das obras (aqui) — sonho que, nem de longe, se concretizou.

Mas as obras grandiosas, e seu elevado custo, realizadas em poucos meses, entre 1909 e 1911, com equipamentos, matérias-primas e artigos de decoração importados da Europa e da Ásia, por um formidável contingente de artistas, mestres de obras, pedreiros, operários, geraram diversas criticas. Como a que vai abaixo, extraída do livro Memória dos Setenta, de Antônio Fonseca Pimentel, livro este que já comentamos em outra oportunidade (aqui).

Diz Fonseca Pimentel que a nomeação de seu pai — Antônio Pimentel Júnior [1] — para prefeito de Lambari se deu em razão

da decisão de Bueno Brandão de substituir, na prefeitura [de Águas Virtuosas]... a Américo Werneck, que, dentre numerosas outras obras, concluíra a construção do cassino de Lambari e o inaugurara em 1911.

Bueno Brandão, como chefe do executivo estadual, estivera presente às festas de inauguração, verdadeiramente de mil-e-uma noites, segundo a tradição conservada[2] E em sua conhecida simplicidade e austeridade, regressara a Belo Horizonte, segundo os íntimos, escandalizado com tamanha pompa e, de acordo com uma anedota, achando que, naquele andar, Américo Werneck quebraria não só Lambari, mas o próprio Estado de Minas, o que era evidentemente um exagero.

Meu pai era, assim, nomeado com a recomendação expressa de não gastar, ou gastar o menos possível, para compensar os gastos da administração anterior.

Era uma tarefa antipática e ingrata perante uma comunidade que esperava que Américo Werneck transformasse Lambari na Monte Carlo não só de Minas, mas do Brasil, o que não ocorreu nem sequer com o cassino de Quitandinha, construído trinta anos depois em Petrópolis, a algumas dezenas de quilômetros apenas do Rio de Janeiro.

(Obra citada, págs. 57/58)


  1. Sobre Antônio Pimentel Júnior, prefeito de Lambari entre 1912/1918, veja este post (aqui)
  2. Sobre a inauguração das obras realizadas por Werneck, veja este post (aqui)

E o cassino de Werneck, inacabado, por tantos anos fechado ou subutilizado, tornou-se alvo de cáusticos comentários, tornando-se um chiste para obras faraônicas, ou inacabadas, como este que se fazia em relação à construção de Brasília:

... obra do agoiro: "Não vai adiante. Outro presidente que vier fica por aqui mesmo. Gastar tanto dinheiro para nada! Essas obras não serão terminadas. E as que forem ficarão para os morcegos, como as do Cassino de Lambari"...

Osvaldo Orico. Brasil, capital Brasilia., pág.119


Uma suposta autocrítica

Na Fazenda Pinheiros, em Nova Baden, onde Werneck residiu no final dos anos 1800/início dos anos 1900, atualmente funciona a sede do Parque Estadual de Nova Baden.

Antiga foto da Fazenda Pinheiros, em Nova Baden, Lambari (MG)

E lá se encontra a foto abaixo, que retrata Maria, primogênita de Werneck, em companhia de um burro. Sobre essa alimária, "batizada por Zacarias", e depois "crismada por Werneck", teria dito o artífice de Águas Virtuosas: 

​Só existe um jerico mais obtuso que Zacarias: Eu, Werneck, que quis fazer de Águas Virtuosas uma grande fonte de renda para Minas Gerais.


 

Maria Werneck e Zacarias

Dizeres ao pé da foto acima


 

Publicado por Guimaguinhas
em 10/04/2015 às 07h45
 
06/04/2015 15h06
MEMÓRIAS DE AGUINHAS - Relatório do Eng. Benjamin Jacob sobre o Parque das Águas (1904)

Ilustração: Pavilhão das Fontes - Lambari (MG), início dos anos 1900.


SUMÁRIO

  1. Introdução

  2. O relatório de Benjamin Jacob, Engenheiro Fiscal das Águas Minerais

  3. As fontes

  4. O parque

  5. O estabelecimento hidroterápico

  6. O edificio de engarrafamento

  7. O antigo cassino


Introdução

Conforme já narramos na Série Parque das Águas, foi o engenheiro Benjamin Jacob o responsável pela captação de nossas águas minerais (aqui).


 

Benjamin Jacob, no primeiro plano, examinando a captação das águas de Lambari


A captação das águas se deu em 1905, mas já antes dessa data Benjamin Jacob exercia o cargo de Engenheiro Fiscal das Aguas Mineraes do Estado, e foi nessa qualidade que produziu, em 1904, um relatório sobre o Parque das Águas de Águas Virtuosas, documento esse que foi apresentado pelo Secretario de Estado dos Negócios das Finanças, Dr. Antonio Carlos Ribeiro de Andrada, ao sr. Dr. Antônio Francisco de Salles,  então Governador de Minas Gerais.

Tal relatório, que vai abaixo reproduzido, conservando a ortografia daquela época, fornece uma descrição da precária situação do parque das águas e de nossas fontes, no início dos anos 1900.

Voltar


Acima pode-se ver o Parque das Águas e parte das edificações descritas no relatório abaixo, tais como: o antigo cassino (existente no interior do parque), o balneário, as fontes e o gradil de ferro que circundava o parque.


O RELATÓRIO DE BENJAMIN JACOB

SECÇÃO DE LAMBARY

Esta estancia está situada na Villa de Aguas Virtuosas, distante 6 kilometros da povoação de Lambary. A altitude acima do nivel do mar é de 900 metros.

As fontes

As fontes mineraes são em numero de quatro, sendo 2 gazosas e 2 férreo gazosas: uma destas ultimas, a fonte Maria ou Ferreira Netto, é considerada sulfurosa, porém nada justifica essa crença do povo.


Turistas, no Parque das Águas, em 1905


A fonte mais importante é a chamada do Parque: pertence ao grupo «las gazosas" e tem uma vasão do 48.000 litros em 24 horas.

Esta fonte cujos primeiros trabalhos de beneficiamento foram executados pelo engenheiro Gerber [1], vae ser agora captada em maio próximo por ordem do governo, dando assim cumprimento a clausula 6a. do contracto de 5 de outubro de 1900.  

 

A fonte do Parque é abrigada por um vasto chalet de madeira com duas paredes de venezianas, forrados de mozaico o solo e as paredes até uma certa altura; a bocca do poço que  tem 0,80 do diâmetro é também forrada de mozaico. Ha um empregado encarregado de apanhar agua para os aquáticos: para esse fim ele serve-se de um copo de prata suspenso a uma corrente do mesmo metal, de modo que as mãos não ficam em contacto com agua.

 

Ao lado dessa fonte fora do chalet que a protege, existe uma espécie de chafariz ao qual a agua da fonte do Parque devia chegar por meio de uma bomba aspirante. Segundo fui informado, semelhante combinação nunca deu resultado, provavelmente devido a grande quantidade de gaz carbónico que é também aspirada pela bomba.


Chalet que abrigava as fontes de águas minerais


A outra fonte gazosa acha-se em frente à precedente, abrigada por uma casinha de tijolo coberta de telhas chamada casa da bomba.

 

Ahi está installada uma bomba que leva a agua para o estabelecimento balneário: esta fonte não está captada e a sua agua é exclusivamente utilisada para usos externos; no logar existe um poço de 2,35 de altura ocupando a agua 73 centimetros no fundo.

As duas fontes ferreo-gazosas são conhecidas pelos nomes de Paulina e Maria ou Ferreira Netto; a primeira contém uma agua límpida, transparente, incolor, inodora, de sabor picante e ligeiramente estiptico; a agua da segunda é também limpida, transparente, incolor de sabor picante e levemente hepático de cheiro muito pouco pronunciado de acido sulphydrico; com o tempo deixa depositar flocos avermelhados de oxydo de ferro.

 

Cada uma destas fontes está abrigada per um elegante chalet octogonal com columnas de ferro fundido. Estão ambas mal captadas e situadas num pequeno jardim de 1.260 metros quadrados de superfície, fronteiro ao parque, cercado de gradil de ferro sobre sapata de alvenaria nos dous lados que dão para as ruas e de muro de tijolo, do 1, 50 m de altura nos outros lados: parte de um desses muros está ameaçando ruina. Este jardim está bem tratado, contendo flores em profusão, e pertence, ao Estado, em virtude da clausula 2ª. do contracto em vigor.


As fontes números 5 e 6, conhecidas por Fontes Paulina e Maria

Voltar


O Parque

O parque propriamente dito, de dimensões muito exiguas, apenas 5.500 metros quadrados, é cercado por três lados de ruas publicas e casas particulares; nelle estão as duas fontes gazosas, o estabelecimento hydro-therapico, e o cassino.

 

O seu cerco compõe se de gradil de ferro sobre sapata de alvenaria na maior parte do perimetro e de gradil de madeira sobre sapata, de alvenaria na parte restante. Existem cinco portões de entrada, 3 principaes e 2 de menor importância ; os portões principaes, de 2 metros de largura, estão collocados um ao lado do chalet da fonte do Parque, entre elle a casa da bomba: o segundo em frente ao primeiro e ao lado do cassino; o terceiro, em frente ao estabelecimento balneário.

 

Os dous outros portões abrem-se, um em frente ao chafariz da fonte do Parque, o outro em frente ao engarrafamento.


Vista do muro do parque, cercado de gradil de ferro, início dos anos 1900


O parque do Lambary foi convenientemente arborizado e ajardinado; mas hoje está muito mal conservado: as suas ruas muito estreitas, estão muito baixas, em nivel muito inferior ao das ruas que circumdam o parque, de modo que quando chove ficam alagadas, impedindo qualquer passeio dos aquáticos.

 

É necessário fazer -se um grande aterro no parque, numa altura de 0,50 m na media e ajardinal-o novamente.

No parque ha um caramanchão descoberto produzindo má impressão: seria melhor que fosse desmanchado.

A faixa do parque que liga os dous portões fronteiros e que é cimentada está muito gasta e cheia de buracos.

Voltar


O estabelecimento hidroterápico

O estabelecimento hydro-therapico é de construcção antiga; as suas paredes são de enchimento: mede 30 m de frente por 12 do fundo e tem na frente uma varanda cimentada de 3,90 de largura com grade de madeira: é simétrico em relação à sala de duchas que está no centro do edifício: consta de dous pavimentos: no inferior estão a sala hydrotherapica, salas de espera, gabinete do medico, escriptorio da gerência, vestiarios, banheiras e rouparias; no pavimento superior estão a sala de electretherapia, o observatório meteorológico e uma vasta sala que não é aproveitada: acima estão as duas caixas de agua gazosa, quente e fria para as duchas; essas caixas têm respectivamente uma capacidade de 3.500 e 5.800 litros.


Estabelecimento hidroterápico. Anos 1890. Reprodução. Fonte: ALMEIDA, 1896


A agua commum é elevada por uma bomba a vapor, sendo o motor aproveitado para accionar a machina eléctrica: por esse motivo é essa a unica machina electricca que funciona regularmente de todas as estancias de aguas do Estado, e a única que tem dado alguma renda; essa agua commum é canalizada e captada a cerca de 150 metros do distancia, em terrenos do Estado.

 

As banheiras são todas de 1ª. classe, feitas de ferro esmaltado; a sala de duchas é muito acanhada e os apparelhos não são completos: é commum a homens e senhoras. A sala de espera do lado dos homens está ocupada com a gerência.

O estado de conservação desse edificio é a peor possivel; muitas das paredes apresentam enormes rachas de lado a lado, indicando abatimento: o soalho está todo desnivellado; ha cerca de cinco anos o pavimento superior precisou ser sustentado por fortes columnas de madeira de lei: as paredes do banheiro n. 5 estão rachadas e completamente fora do prumo. O soalho e as paredes da sala de duchas estão muito estragados: foi preciso ultimamente fazer a substituição de parte dessa parede, que tinha ruido. Os encanamentos condutores de agua para o estabelecimento estavam muito estragados, mas foram substituídos por novos em fins do mez de fevereiro ultimo. 

 

Como ainda não me chegou às mãos o relatório desta secção, não posso indicar qual foi a renda do estabelecimento hydrotherapico durante o anno findo; devo, entretanto, declarar que examinando a escripturação fiquei agradavelmente impressionado com a renda da secção de electrotherapia, que foi de cerca de 1:000$000.

Voltar


O edifício do engarrafamento

O edifício do engarrafamento que pertence ao Estado em virtude da clausula 2ª. já citada, tem 28 metros de frente por 20,30 m de fundo; repousa sobre fundações de alvenaria e as suas paredes são de taboas collocadas verticalmente; é dividido em três partes sendo duas antigas e a terceira do lado ribeirão, recente; aquellas duas partes são assoalhadas, esta não o é. 

 

É coberto do zinco, o telhado é dividido em três aguas, sendo a do centro mais alta do que as lateraes. Ligando a fonte do parque ao edifício do engarrafamento, existe uma linha de bondes de 90 de bitola e 100 metros de extensão.


Vista do Parque das Águas. Primeira década de 1900


A lavagem das garrafas é feita no próprio edifício do engarrafamento em grandes tinas de madeira, sendo a agua para esse fim fornecida por uma caixa metallica circular, montada na parte central do edifício.

 

De accordo com a clausula 21ª. do contracto, a agua é esportada como sáe da fonte.

 

Durante o anno passado a exportação foi nulla.

Voltar


O antigo cassino

Existe nesta estancia de aguas um cassino, que é o antigo estabelecimento balneareo construído pelo engenheiro Gerber. Está collocado dentro do parque, atraz do actual estabelecimento hydrotherapico.



Actualmente está o cassino arrendado ao operoso sr. Affonso de Vilhena [2], que não tem poupado esforços para transformal-o em ponto preferido de reunião dos aquáticos. Este edifício está bem conservado, contrastando o seu aspecto com o do seu vizinho; tem sala de leitura, de musica, de bilhar e outros jogos, latrinas e buffet. Seria para desejar que todas as nossas estancias do aguas tivessem o seu cassino.

As observações meteorológicas foram muito incompletas, e os motivos são os mesmos apontados na secção de Cambuquira: alguns instrumentos desarranjaram se e foram remettidos para o Rio, para serem concertados e de lá não foram ainda devolvidos.

É medico e gerente da empresa nesta secção o sr. Dr. João Braulio Moinhos de Vilhena [3], o qual não tem cessado, conforme tive ensejo de verificar, de reclamar da directoria da empresa os meios necessarios para introduzir na estação de aguas sob sua administração os melhoramentos de que precisa.

 

Caxambu, 15 de Março de 1905.

Benjamin Jacob.— Engenheiro Fiscal das Aguas Mineraes. 

Voltar


Notas

[1] Henrique Gerber: foi o engenheiro que na década de 1860, mandado pelo Governo da Província, realizou obras de saneamento e urbanização para melhor aproveitamento de nossas águas minerais. Construiu também o Estabelecimento Balneário, que, inaugurado em 1872, foi demolido em 1922, quando do aumento do parque.

 

[2] Afonso de Vilhena Paiva: nascido em Campanha (MG) estabeleceu-se em Águas Virtuosas em 1890 como comerciante e desenvolveu aqui intensa atividade política, ao lado de João Bráulio Júnior, seu cunhado. Elegeu-se vereador por diversas legislaturas.

 

[3] João Bráulio de Moinhos Vilhena Júnior: médico e político de grande prestígio no Sul de Minas, nascido em Campanha (MG), em 23 de julho de 1.860, e que se estabeleceu em Lambari em 1890. Foi eleito deputado por diversas legislaturas. No Governo João Pinheiro ocupou o cargo de Secretário de Finanças de Minas Gerais. Faleceu em um acidente automobilistico em Paris, em 1908.


Fonte: Relatorio apresentado ao Exmº. Sr. Dr. Francisco Antonio de Salles, Presidente do Estado de Minas Geraes, pelo Secretario de Estado dos Negocios das Finanças, Dr. Antonio Carlos Ribeiro de Andrada.

 

Referências: ALMEIDA, Dr. Pires de. Lambary e Cambuquira - Hydro-estações ao Sul do Estado de Minas Gerais - Brazil. Typ. Leuzinger, Rio de Janeiro, 1896


Sobre o Parque das Águas, veja também: (aqui)


Voltar

 

 

 

 

 

 

 

Publicado por Guimaguinhas
em 06/04/2015 às 15h06
 
10/03/2015 07h34
MEMÓRIAS POLÍTICAS DE AGUINHAS (3) - Garção Stockler, o criador de Águas Virtuosas

Ilustração: Retrato de Garção Stockler. Reprodução. Recorte. Fonte: http://www.novomilenio.inf.br


SUMÁRIO


Introdução

Eustáquio Garção Stockler [Campanha, MG (?) — Soledade de Minas (1927)], médico formado pela Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro, escritor, propagandista do movimento republicano, é figura das mais importantes da memória política de nossa cidade.

Se Lambari deve a Américo Werneck a construção de suas obras fundadoras (cassino, lago, farol, parque novo), como já dissemos aqui, deve antes a Garção Stockler a criação da estância hidromineral de Águas Virtuosas. 

De fato, a vinda de Garção Stockler para residir no município, as obras que realizou, o trabalho político que empreendeu e a divulgação que fez das águas minerais foram pontos fundamentais para o desenvolvimento do vilarejo. Daí porque Stockler é considerado o criador da estância hidromineral de Águas Virtuosas de Lambary, como centro de vilegiatura e de tratamento. (1) 

Coube também a ele obter a aprovação de um plano de saneamento e embelezamento da vargem — extensa área de terreno pantanoso e alagadiço, situado em ponto central da povoação e o alinhamento das principais vias de acesso ao Parque das Águas, obras essas concretizadas por Werneck, entre 1909-1911. (2) (3)


  • Veja também este post: (aqui).

​Voltar


A missão de Garção Stockler

O memorialista campanhense Júlio Bueno narra como se encontrava a vila de Águas Virtuosas no final da década de 1870:

Em 1879, quando visitamos pela primeira vez a localidade de Águas Virtuosas, lá vimos os edifícios dos poços abandonados, em ruína, arruinados também os melhores prédios (...) Vimos poucos hotéis, silenciosos, cheios de uma vaga tristeza, com os velhos papéis das paredes desbotados, com suas alcovas cheirando a mofo. 

Depois, conta como Garção Stockler encantou-se com a vila:

Um dia um moço campanhense, filho de uma antiga e fidalga família, de volta de sua longa e afanosa carreira científica, ao passar por aquela fonte, que ficava à beira da estrada do Rio, apeou-se pra libar o precioso líquido. Nesse momento atravessa no seu espírito um raio de luz, e um sorriso de satisfação assoma-lhe aos lábios: estava traçado o seu itinerário, até aquele instante indeciso; estava decretado o reflorescimento de Águas Virtuosas de Lambari. Esse campanhense ilustre é o Dr. Stockler.  Vinha ele de concluir a sua carreira médica, que lhe custou longas horas de esforço inaudito, de vigílias desalentadoras, pois para manter-se fora obrigado a roubar ao estudo muito tempo, empregando-o em explicações de preparatórios...  

(Fonte: Almanaque Julio Bueno, p. 96)


Após fixar residência em Lambari (1882), e em paralelo às suas atividades médicas, políticas e científicas, ainda realizou Garção Stockler em Águas Virtuosas:

  • A fundação da primeira empresa exportadora das águas, de cuja exploração tornara-se arrendatário, em sociedade com o Dr. Bandeira de Mello.
  • A criação do que ficou conhecido como Parque das Águas*. 
  • O lançamento do jornal Àguas Virtuosas, para fazer propaganda das águas minerais, e, depois, da folha A Peleja, como tribuna de ideias políticas.
  • A formação da temporada de veraneio (janeiro a março; setembro a dezembro).

(*) ​A denominação Parque das Águas passou a indicar as fontes das águas minerais e seu entorno, após as obras empreendidas por Garção Stockler, nos anos 1880/90: aumento da área em torno das fontes, reforma do balneário, ajardinamento, cercamento com grades de ferro, etc. (4)

​Voltar


O contrato de exploração das águas virtuosas

 

Fonte: Jornal A União (Ouro Preto) - 6/7/1887


Nomeação como médico do balneário

Nomeação de G. Stockler como médico do estabelecimento hidroterápico. Fonte: O Farol (Juiz de Fora) - 9/11/1900

​Voltar


Propaganda da estância e de suas águas

Propaganda das águas virtuosas - jornal O Constitucional, 19-07-1885.

  • Por essa época, os aquistas (como eram chamados os que buscavam tratamento por meio das águas minerais) vinham de trem até Contendas (entre Caxambu e Conceição do Rio Verde), depois percorriam  de cavalo ou charrete "pouco mais de 5 léguas" até Águas Virtuosas. Em 1894, um ramal ferroviário chegou a Águas Virtuosas (veja aqui)
  • A propaganda menciona Garção Stockler, então diretor da "empresa das águas", a excelência do clima e a melhor época para as "temporadas".

Referência ao "médico Garção Stockler", que poderia cuidar da saúde de  "hóspedes enfermos" em visita à  Águas Virtuosas. (Propaganda em A Peleja)


Em 1892, as águas de Lambari já são vendidas em São Paulo.

Fonte: SANT'ANNA, Denise Bernuzzi de. Cidade das Águas - usos de rios, córregos, bicas e chafarizes em São Paulo (1822-1901). São Paulo : Editora Senac, 2007.

​Voltar


Atividades políticas de Garção Stockler

Garção Stockler formou em Águas Virtuosas um agrupamento político do qual fizeram parte João Bráulio Júnior e João de Almeida Lisboa. Interesses políticos mútuos levaram Américo Werneck para tal grupo, que, a partir de 1899, passou a residir em Águas Virtuosas, na Fazenda Pinheiros, de propriedade de Garção Stockler. Esse grupo batalhou pelo reconhecimento das águas minerais  no tratamento de doenças e pela formação de uma estância hidromineral modelar, tendo participação decisiva no desenvolvimento de Águas Virtuosas, no final dos anos 1890 e início dos 1900. (5)

Stockler exerceu diversas funções públicas e cargos políticos, sempre atuando em favor dos interesses de nossa cidade:

  • Em 1887 foi eleito vereador em Campanha.
  • Em 1891 foi eleito deputado estadual e como tal foi um dos signatários da Constituição mineira.
  • Por essa época, depois da elevação da povoação das Águas Virtuosas à condição de Distrito de Paz, foi presidente do 1o. Conselho Distrital.
  • A partir de 1901, depois da criação do município de Águas Virtuosas do Lambari, foi durante anos seguidos o agente executivo municipal.
  • Em 1908 ocupou uma cadeira de senador estadual.
  • Em 1911 foi eleito deputado federal por Minas Gerais e exerceu o mandato entre 29 de agosto e 31 de dezembro, quando se encerrou a legislatura.
  • Reeleito para a legislatura 1912-1914.

Fonte: Ioneide Piffano Brion de Souza - Disponível em: http://goo.gl/Q5vx7t  


G. Stockler foi redator da folha política A Peleja, publicada em Águas Virtuosas, no final dos anos 1900.  Acima, frontispício da edição de 15 de maio de 1898.


(O grupo político de Garção Stockler) fundou, no transcurso da segunda metade da década de 1890, o  semanário A PELEJA que, pelo valor dos colaboradores, se tornou o mais importante arauto político noticioso e literário da época, em todo o sul de Minas. Américo Werneck, Ferreira Brandão, João Brandão, João Luiz Alves, grandes figuras do jornalismo mineiro, mantiveram suas colunas na A PELEJA, no jornal dirigido por Dr. Eustáquio Garção Stockler, dando-lhe realce e concorrendo para manter a brilhante posição política e social que a povoação de Águas Virtuosas conquistara naquele final do século 19, por mercê de seus homens públicos que, mais do que simples chefes políticos de um Distrito de Paz, eram autênticos líderes em toda região sul-mineira campanhense.

MILÉO, José Nicolau. Subsídios para a historia de Lambari. Guaratinguetá, SP : Editora Graficávila, 1970, págs. 119/20.

​Voltar


Discursos de Garção Stockler

Alguns registros históricos nos mostram Garção Stockler como um notável orador. Vejam-se estes tópicos:

Na festa da Proclamação da República, em Campanha (18-11-1889)

Depois de tomarem assento os vereadores, o presidente, Dr. Eustáquio G. Stockler, fez um resumo dos acontecimentos que originaram a Proclamação da República no Rio de Janeiro e proclamou-a por sua vez, após o assentimento unânime dos vereadores. (...) Como ninguém mais pedisse a palavra o Dr. Stockler, presidente, encerrou a magna sessão com um discurso grandioso na forma, sublime pela profundeza dos conceitos. A cada instante o orador era interrompido por salvas de palmas frenéticas, prolongadas. Ao terminar foi abraçado com efusão por todos os circunstantes que o vitoriaram.   

Na inaguração da água potável, em Campanha

Obteve então a palavra o ilustrado facultativo, Dr. Eustáquio Garção Stockler, que produziu um discurso que a todos comoveu e arrebatou: a moral, a caridade, a gratidão, a ilustração e a memória dos antepassados que baixaram à tumba, legando à posteridade um nome e o produto de tanta justiça, abnegação e patriotismo, foram ali apreciados pelo distinto orador por alguns momentos admirável e surpreendente. Terminada a brilhante oração de tão profundo observador, vibrante analista e eminente escritor, o povo de novo pôs-se em marcha

(Fonte: Almanaque Julio Bueno, págs. 38, 60)


Nos redutos acadêmicos

Extraído da revista Atheneu Acadêmico, RJ, n. 2, de agosto de 1877.


Discursos em Águas Virtuosas

Por aqui, Garção Stockler discursou, por exemplo, a 9 de janeiro de 1902, quando tomou posse como Agente Executivo Municipal. Da ata dessa sessão solene, publicada por João Carrozzo  no livro História Cronológica de Lambari, págs. 116 a 118, consta o seguinte:

"... O Dr. Eustquio Garção Stockler que em brilhante e conceituado discurso, hypotecou as suas forças à causa do engrandecimento do novo município à cuja frente foi colocado por generosidade de seus amigos e correlegionários e convidou para unir-se no ideal de sua felicidade syntetizada na prosperidade do novo Município..." (sic)

Stockler voltou a discursar em agosto de 1909, por ocasião da lançamento da pedra fundamental das obras do cassino:

Fonte: Anuário Minas Gerais 1913

E, claro, tornou a discursar novamente, em abril de 1911, quando da inauguração das obras fundadoras de Águas Virtuosas, conforme já anotamos em post anterior. Confira (aqui)

​Voltar


Referências

  • (1) MILEO, José Nicolau. Ruas de Lambari. Guaratinguetá, SP : Graficávila, 1970a, p. 50
  • (2) MILEO, José Nicolau. Subsídios para a história de Lambari. Guaratinguetá, SP : Graficávila, 1970b págs. 121 e 130
  •  (3) SILVA, Francislei Lima da. Os monumentos da água no Brasil. 2011, p. 47 disponível aqui
  •  (4) MILEO, 1970a, págs. 25-26
  • (5) CASTILHO, Fábio Francisco de Almeida. A Construção da Estância Balneária de Águas Virtuosas.In Como Esaú e Jacó: as oligarquias sul-mineiras no final do Império e Primeira República. Tese (Doutorado em História). Universidade Estadua Paulista, 2012, págs.129/130 - Disponível aqui
  • Jornais e revistas antigos: http://memoria.bn.br/
  • Ilustração de abertura: Foto de Garção Stockler (Fontehttp://www.novomilenio.inf.br/)

Veja também estes posts:

  • MEMÓRIAS POLÍTICAS DE AGUINHAS (1) - Dr. José dos Santos, médico e prefeito, aqui
  • MEMÓRIAS POLÍTICAS DE AGUINHAS (2) - Dr. Antônio Pimentel Júnior, sucessor de Américo Werneck, aqui
  • INAUGURAÇÃO DAS OBRAS DE AMÉRICO WERNECK, aqui

​Voltar

Publicado por Guimaguinhas
em 10/03/2015 às 07h34
Página 67 de 112

Espaço Francisco de Paula Vítor (Padre Vítor)

 

Aprendizado Espírita Net

 

 

PEQUENA HISTÓRIA DE ÁGUAS VIRTUOSAS DE LAMBAR... R$ 86,87
A FACE DESCONHECIDA DA MEDIUNIDADE - A sensib... R$ 29,78
A Guerra das Espingardinhas R$ 35,19
LIVROS/E-BOOKS DO AUTOR NA UICLAP E AMAZON/KI... R$ 1,00
As Águas Virtuosas de Lambari e a devoção a N... R$ 22,87
Os Curadores do Senhor R$ 36,40
Abigail [Mediunidade e redenção] R$ 33,55
Menino-Serelepe R$ 41,35
Site do Escritor criado por Recanto das Letras

Formas de interação com o site GUIMAGUINHAS

- Contato com o site - clique o link e envie sua mensagemhttp://www.guimaguinhas.prosaeverso.net/contato.php

- Contato com o autor - envie mensagem para este e-mail: historiasdeaguinhas@gmail.com

- Postar comentários sobre textos do site - utilize esta ferramenta que está ao pé do textoComentar/Ver comentários 

- Enviar textos: utilize acima: