Guimagüinhas
Memórias familiares e da minha cidade natal
Textos
Apresentação
 
...afinal de contas, essa história de Aguinhas,
escrever causos, falar da família, tudo isso
é invenção dele mesmo[do meu avô].
 
(Menino-Serelepe. A última do Pai Véio)
 
No registro civil era José Guimarães Silva, mas só descobrimos isso quando ele foi se aposentar pelo FUNRURAL, pois a vida inteira assinou José Batista Guimarães. Nós, os netos, fomos quase todos criados muito próximos dele. Por isso o chamávamos de Pai Véio. E ele nos fez gostar de histórias.

Pai Véio, um contador de histórias
 
Para o seu Zé Batista, por tudo.
 
Sentado no alpendre do sobradão, Pai Véio espichava preguiçoso as pernas  compridas. Nos pés, sandálias ou botinas com pequenos furos, feitos a canivete, na forma de cruz. Eram “janelinhas” que recortava para descansar os calos... Quando, ao correr ou passar, pisávamos seus pés, lá vinha o grito: Cuidado, menino, olha meus calos!
 
Ainda hoje ouço sua voz e o vejo recolher rapidamente as pernas, temendo ser pisado ao correr das nossas tropelias. Ali ele contava aos netos os causos, as histórias, as memórias da família.
 
Estudos limitados na infância, a cultura do José Batista se fez na vida, na tradição oral e nos livros. Uma infância dura e difícil e uma árdua vida de roceiro pobre e carreiro exímio curtiram meu avô. Tornou-se um homem trabalhador, honesto, grave e responsável. O Espiritismo domou sua alma, fazendo-o agir com um misto de retidão e bondade. Severo e implacável com os erros; piedoso e paciente com quem errava.
 
Dotado de um gênio doce e brincalhão, era satírico, irreverente, trocista e até mesmo sarcástico e cortante, em certos casos. Possuía especial talento para cantar trovas, arremedar tipos, parodiar situações, distribuir apelidos e, claro, para imaginar, coletar e contar histórias e causos. Como também estórias, lendas, contamentos, fábulas, parábolas, sátiras, paródias, casos e outros acontecidos — catados, inventados, inspirados, adaptados, recriados por um grande contador de histórias.
 
E a essas tramas fantásticas era ainda adicionada a contraparte espiritual: os circunstantes e as circunstâncias espirituais perceptíveis e imperceptíveis pelos homens encarnados. Vida e ficção, fantasias e realidades — baralhadas, confundidas, recriadas — numa fantástica alquimia.
 
Numa cidade pequena do interior de Minas Gerais, a infância de seus netos se transcorreu modestamente, no íntimo duma vida familiar estreita e rica, muito rica de atenção, carinho e histórias.
 
(Era deste modo que Pai Véio abria a contação de histórias:
 
— Há muito tempo passado, num lugar chamado Aguinhas, numa Província do Reino Dorminhoco, lá nas Terras-de-trás-os-ocos-do-mundo, foi que estes acontecidos se deram.

E, em seguida, cantava alto o tão esperado bordão:
 
— E os poucos que os contam, contam assim como eu vou contar.
 
E a fantasia começava, sem hora pra terminar.)



(*) Este texto faz parte do livro Menino-Serelepe - Um antigo menino levado contando vantagem, de autoria de Antônio Lobo Guimarães, pseudônimo com que Antônio Carlos Guimarães assina a coletânea HISTÓRIAS DE AGUINHAS. Veja acima o tópico Livros à Venda.

 
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Enviado por Guimaguinhas em 09/03/2013
Alterado em 11/09/2013
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