Ilustração: Vitral oval do Cassino de Lambari, que seria ponto de referência de efemérides solares.
(...) a curiosidade daquela época na fachada lateral [do Cassino]era um vitral, no lado leste, que marcava os solstícios de verão e de inverno e os equinócios, segundo alguns estudiosos.
JORNAL "ESTADO DE MINAS" [1]
Neste post vamos resumir uma curiosa história sobre o nosso Cassino e as efemérides solares.
Vamos lá.
No livro O Palácio Casino de Lambari - Sonho, Segredo, Realidade, Antônio C. Martins de Carvalho [2] descreve "um fato astronômico desconhecido envolvendo o Casino".
Na opinião de Martins de Carvalho, que também é astrônomo amador, Américo Werneck
(...) posicionou admiravelmente o Palácio de Lambari para marcar nos pontos determinados as quatro principais efemérides do Sol, que são: o Solstício de Verão, os Equinócios e o Solstício de Inverno. [3]
Desse ponto de vista, haveria no Cassino de Lambari marcações importantes relativas a tais efemérides do Sol, que só encontrariam equivalentes nos monumentos megalíticos existentes na Porta do Sol, situada em Thiunacaco, na Bolívia e em Stonehenge, no Sul da Inglaterra. [4] Como se sabe, alguns estudiosos afirmam que esses dois monumentos estão orientados para marcar, respectivamente, os Equinócios ao amanhecer, e o Solstício de Verão, no hemisfério Norte.
Segundo Carvalho [5], o que o engenheiro Américo Werneck
(...) projetou para homenagear o Sol, quando desenhou a planta do Palácio de Lambari, está relacionado com a proporção das medidas da construção e a latitude do lugar (...)
Para ilustrar sua teoria, o autor elaborou uma planta na qual estariam as marcações que permitiriam observar o pôr do sol nas quatro principais efemérides solares: solstícios de inverno e verão e equinócios. A altura e posição dos zimbórios (cúpulas), a colocação do vitral oval, a medida e localização das varandas, constituíriam pontos de referências para essa observação. [6]
Eis a visão da planta baixa do Cassino, que para Martins de Carvalho mostram a intenção de Werneck quanto às efemérides solares:
Fonte: O Palácio Casino de Lambari - Sonho, Segredo, Realidade, de Antônio C. Martins de Carvalho
O centro da varanda do lado leste (o item 4, na figura acima) seria o ponto de referência com base no qual Werneck teria orientado as dimensões do seu projeto. Afirma Carvalho, ainda, que
(...) o pôr do sol, no dia do Solstício de Verão, poderia ser visto dentro do vitrô oval, para uma pessoa situada no centro da varanda do lado leste (...) [7]
Pontos cardeais - A frente do Cassino está voltada para a Serra das Águas, ao Norte
Vitrô oval do Cassino
Fachada leste do Cassino [8]
Em sua monografia de doutorado em História [9], Fábio Francisco de Almeida Castilho anota que ao lado do Cassino (à esquerda, olhando-se o prédio de frente), foi construído o Farol da República, que, à época de sua inauguração, iluminava o lago e produzia um belo efeito nos vitrais do Cassino. O farol guarda simetria em relação ao solstício e ao equinócio, e a escolha do nome foi uma homenagem ao regime republicano, do qual Werneck foi ardoroso defensor.
Esse também é o pensamento de Martins de Carvalho, ao informar que Werneck
(...) posicionou o Farol de modo que quem visse o pôr do sol da janela em estilo gótico, localizada na parte superior, coincidisse com o Sol se pondo, no meio do telhado do salão principal, no dia 15 de novembro. Sem dúvida, uma demonstração de que era republicano. [10].
Ao fundo, o Farol da República, visto da balaustrada do Cassino [8]
Extraído de Paulo Cesar Sentelhas e Luiz Roberto Angelotti. ESALQ/USP
Fontes: Dicionário Astronômico/Inape/Araçatuba (aqui) - Aula de Meteorologia Agrícola/Esalq/USP (aqui); Wikipedia.
Como se sabe, o prédio do Cassino passa por uma reforma (aqui, o projeto), e é bom lembrar que em obras e restaurações anteriores ocorreram diversas agressões às características originais do prédio (veja aqui, especialmente o tópico Restaurações).
Assim, tanto quanto possível, elementos arquitetônicos originais, como os referidos no livro objeto deste post e tantos outros mais, são itens que devem ser preservados, em respeito à memória cultural e histórica de Lambari e da monumental obra de Werneck.
Outra visão do vitral oval do Cassino
Uma visão dos zimbórios (cúpulas) do Cassino
Outra visão dos zimbórios (cúpulas) do Cassino
Nota: Exemplar do livro O Palácio Casino de Lambari - Sonho, Segredo, Realidade, de Antônio C. Martins de Carvalho, encontra-se no Museu Américo Werneck (aqui).
Fotos: Museu Américo Werneck; Carlos Augusto Lorenzo; Fundação João Pinheiro.
Sobre Américo Werneck, veja:
Série Américo Werneck (aqui)
(*) Se você, caro(a) visitante, tiver notícias, informações, fotos, ou quiser fazer alguma correção ou complementação ao texto aqui publicado, entre em contato conosco neste e-mail: historiasdeaguinhas@gmail.com
Foto de abertura: Antigo postal em cores* do Laguinho dos Patos, no Parque Wenceslau Braz, Lambari, MG.
[*] Naqueles tempos, o postal, originalmente em preto e branco, era colorido à mão.
Abaixo vão postais do Parque Wenceslau Braz, em Lambari, MG.
Obra de Américo Werneck, construída em 1911, conhecida também por Parque Novo, trata-se de um pequeno bosque, no centro da cidade, com diversas espécies importadas (figueiras, eucaliptos, magnólias, pinheiros), alamedas, coretos e um pequeno lago, com aves aquáticas.
Vegetação semelhante à do Parque Novo existe também no Parque Municipal de Belo Horizonte (aqui), cuja construção se deu à época em que Werneck encontrava-se nessa capital (ele foi Secretário de Agricultura de MG [1898/1901], prefeito de Belo Horizonte [1898] e membro da Comissão Construtora da Nova Capital [1897/1899]. [aqui]).
Sobre a construção desse parque, veja as fotos abaixo e leia este texto, publicado no Anuário de Minas Gerais de 1913 (aqui)
Postais antigos
Fontes: Museu Américo Werneck e coletânea de postais do autor.
Veja o número 1 da série POSTAIS ANTIGOS (Cidade de Lambari), aqui
Foto de abertura: Augusto Wildhagen (de camisa branca) entre Geraldo e Hélio Fernandes, no Vasquinho dos anos 1960.
Augusto Osmar Spíndola Wildhagen (Rio de Janeiro, 23/11/1923; Lambari, 02/03/1991) desde jovem frequentava Lambari. Aqui conheceu Vilma Bacha, com quem se casou — passando a ser conhecido por Augusto da Vilma. Tiveram 3 filhos: Alexandre, Sandra e Soraya.
Cruzmaltino ardoroso, foi durante anos presidente do Vasquinho, de Lambari, time pelo qual eu joguei, no início dos anos 1970.
Guima, Sérgio, Adão e Augusto (1971)
Vasquinho de 1971: Em pé: Guinho (técnico) e Augusto Wildhagen (Presidente) . Agachado: Chá
Veja também estes posts (aqui) e (aqui).
Augusto foi também apaixonado por música, tendo frequentado as rodas de serenatas e a vida boêmia de Lambari, ao lado de Aloisio Krauss, Acácio Barros, João Vital, Cauby Gorgulho, Fernando Dias, entre outros.
Acácio e Aloísio, companheiros de serestas
Ele não tinha formação musical, mas era poeta e compositor inspirado, e deixou três lindas canções sobre nossa terra, cidade que adotou como sua. São estas as músicas: Lambari em Serenata, Dama de Verde e Vilma. A primeira, uma espécie de hino sobre nossa cidade; a segunda, uma homenagem à Serra das Águas; a terceira, uma canção de amor para sua esposa Vilma.
Aliás, essa conquista amorosa teve lances de grande romantismo, como olhares e galanteios lançados do Parque das Águas em direção à loja de seu Elias Bacha (onde Vilma trabalhava) e uma serenata na qual Augusto dedicou à futura esposa a valsa Vilma.
Aloísio Krauss e João Vital — intérpretes das músicas de Augusto Wildhagen
Augusto no aniversário de seu cunhado Celso Bacha. Na foto: João Guimarães, Nambu, Celso, Augusto e Dé da Farmácia (meu pai)
Ouça Lambari em Serenata, com o Grupo ARUS (Associação Recreativa Unidos para Sempre), de Lambari, MG. (aqui)
Lambari em Serenata
É o cheiro da mata/ é um lago que dorme/ é a cascata a correr.
Lambari em serenata, se você nunca viu/ venha ver para crer.
É a turma juntinha/ cantando e tocando/ as nossas canções.
Por detrás da janela/ nas madrugadas de luar/ palpitam devagarinho/ os jovens corações.
É a lua mais clara/ é o céu mais azul/ e o amor que não tem guerra.
Lambari em serenata/ com amor e com bondade/ pedacinho do Céu na Terra.
Dama de Verde
Dama de verde/ que o sol beija todas as manhãs
Num novo exemplo de amor/ que a natrueza vem nos dar
Dama de verde, esperança, raios dourados/ num novo amor entrelaçado
Dama de verde/ se a noite chega, tudo é luto
Já não te vejo/ já não és mais que um simples vulto
Resta a esperança de um novo amanhã que virá
E um novo exemplo de amor/ tu nos darás.
Vilma
És a rainha das águas brasileiras/ tens um clima sem igual
És Lambari pequena e boa/ cidade sensacional
E além de tudo que a natureza criou/ ainda me deste,
Lambari, um grande amor.
És a cidade dos corações, das serenatas e dos nossos violões
Oh Lambari, a sua água é virtuosa!
Conhecida Brasil afora/ tu és a mais formosa
Segundo informa Aloísio Krauss, nos anos 1960, a turma de seresteiros referida acima se reunia, todas as tardes, nos fundos do açougue do Acácio Barros, no centro da cidade. Como o estabelecimento era todo forrado de azulejos brancos, com uma faixa de azulejos pretos, o local improvisado tomou o nome de Estúdio "Faixa Preta". Nesse local, as músicas eram ensaiadas e algumas delas lá foram compostas, como Lambari em Serenata (A. Wildhagen/C. Gorgulho) e Por quê? (F. Dias).
Série Aguinhas Musical
Referências: Youtube, Lambari em Fotos & Textos, Coral Arus.
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Foto de abertura: Vista do Hotel Imperial, recém-construído
Abaixo vão antigos postais de Aguinhas, para nossa recordação. Todos eles foram produzidos pelo Foto Teixeira.
As dependências do Foto Teixeira, no Parque das Águas
Fonte: coletânea de postais do autor.
Veja o número 2 da série POSTAIS ANTIGOS (Parque Novo), aqui
No Menino-Serelepe**, deixei anotadas algumas impressões de minha mãe e seus familiares em face da Segunda Grande Guerra. Eis o texto:
Mas de onde vem esse medo da Neli? perguntavam. (...) E os parentes lhe recordavam a infância difícil, o vô Miguel que ... morrera cedo, os sustos por ocasião da Segunda Guerra, as dificuldades, o medo dos irmãos seguirem para a Itália, o racionamento. (Mãe sempre economizou açúcar e querosene e devia isso ao racionamento, quando só havia rapadura, e contadinha, pra adoçar as coisas e o combustível das lamparinas vinha na continha de um mês.)
Tio Messias trazia do laticínio do seu Alfeu Belloni, onde trabalhava, os jornais e os lia para a família, compondo quadros de horrores, devastação, fome, morte, um pavor sem conta.
E a certo trecho menciono lambarienses que seguiram para a guerra:
Tio Rubens, convocado, chegou a ir até Três Corações, mas um erro no nome do meu avô o livrou de seguir o destino de outros moradores de Aguinhas, como seu Nascime Bacha e seu José Amaral. E muitos se casavam cedo, caso do tio Messias, ante a possibilidade de os reservistas serem chamados. (Por mais terras que eu percorra/não permita Deus que eu morra/sem que volte para lá)
Pois bem. Recentemente os lambarienses convocados para a Segunda Grande Guerra — os chamados pracinhas* — foram objeto de uma homenagem com a criação do Espaco Cívico Nascime Bacha, numa iniciativa da ACIL e CDL, de Lambari, e da EsSA, de Três Corações.Veja as placas que estão expostas na sede da ACIL:
Nascime Bacha e Geraldo Machado, em evento no Cassino
Wílson Krauss e familiares: pais (Olavo e Maria) e irmãos
Dr. Antônio Ferreira (ao fundo, sentado, de bigode), em evento político.
(*) Pracinha - 1 Diminutivo de praça (soldado). 2 Soldado da Força Expedicionária Brasileira, na Segunda Guerra Mundial.
(**) Este texto faz parte do livro Menino-Serelepe - Um antigo menino levado contando vantagem, de Antônio Lobo Guimarães, pseudônimo com que Antônio Carlos Guimarães (Guima, de Aguinhas) assina a coletânea HISTÓRIAS DE ÁGUINHAS. V. o tópico Livros à Venda.
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