Ilustração: Gravura da personagem-menina MARIA BELA e as pets BRUMA e BABI, conforme criação de Celeste Krauss, em 2017
Na série Memórias de Celeste Krauss, estamos resgatando anotações dessa autora acerca da criação da personagem MARIA BELA.
Neste terceiro post, vamos examinar como ela elaborou/modelou/caracterizou (com pequena ajuda deste autor) a referida personagem (que aparece em diversas passagens de nossos escritos — nos meus e nos de minha mulher).
Note-se que essa série Memórias de Celeste Krauss é narrada, em parte, pela autora, sendo outra parte redigida/editada por este autor com base em diversas cadernetas notas e arquivos digitais que ela deixou, nas muitas conversas sobre memórias/histórias/causos familiares com que nos entretemos e nas trocas de ideias sobre escrita literária que fazíamos.
Vamos lá!
No segundo semestre de 2014, logo que me aposentei, deixamos Belo Horizonte e retornamos a Lambari.
Uma mudança que eu não queria fazer — tantas já havíamos feito em nossas vidas, em razão do serviço público que abraçamos — mas não teve jeito: GUIMA queria por que queria residir, enfim, na CASA GORDA — na qual pouco moramos desde que a construímos no início dos anos 1980...
Bem, afinal voltávamos definitivamente (?) à CASA GORDA, que vínhamos chamando de RECANTO DOS NETOS na série de postagens do site GUIMAGÜINHAS.
(Ah, tem uma boa história sobre essa mudança, que um dia vou contar, ou seja: o trabalhão que tivemos com a livralhada do GUIMA no apartamento de Belo Horizonte e na chegada a Lambari...)
Acomodados móveis, livros, roupas e trastes da cozinha, fui organizar os retratos e memórias da família, montar uns scrapbooks, visto que esses materiais ficavam na residência de Lambari.
Ao guardar a documentação pessoal e das nossas aposentadorias, me dei conta de que havia ganhado da BINGA, minha tia-avó — irmã de vó Emília — uns documentos e antigas fotos da família BISPO.
Como o GUIMA sempre teve mania de guardar “retratos, papéis e documentos velhos”, passei-lhe a incumbência de guardar os da minha família, pois se cuidava dos dele, podia bem cuidar dos meus...
(Tadinho, ele guardou papéis e livros para contar meu tempo de serviço perante a previdência durante mais de 40 anos... E tem guardado também o certificado de reservista do seu bisavô Giuseppe Gentili, que deverá instruir futuro processo de cidadania italiana dos nossos filhos).
Em Lambari, a partir de 2015, adquirimos um terreno contíguo à CASA GORDA e fizemos uma entrada de carros, uma garagem e um área gourmet, com churrasqueira, rede, essas coisas. Ah, e mais um cantinho pro GUIMA botar livros...
APRENDER COISAS NOVAS É MUITO BOM
Continuei trabalhando com meu marido na série RECANTO DOS NETOS e passei a ler sobre técnicas literárias e discutir com ele algumas questões — visto que comprara manuais de criação literária, estudara essas técnicas e já havia publicado seus livros.
Ele queria muito que eu escrevesse minhas histórias: — Você tem a cabeça cheia de histórias, Celeste. Tem que pôr no papel — dizia.
Bem, agora aposentada, arrumei meu cantinho e um caderno de notas, ganhei um Dell de presente do maridão, peguei uns livros que ele selecionou e fui estudar uns pontos de criação literária.
Quando se estuda e se pensa em escrever surgem ideias e ideias, relembram-se acontecidos familiares e causos contados pelos avós, que fui anotando num caderno pautado.
Assim, tempos depois, comecei a pensar formas de moldar a personagem MARIA BELA, que eu e GUIMA idealizamos quando estávamos em Belo Horizonte (2014).
Era preciso contar sua história de vida, delinear sua personalidade, integrá-la à nossa cidade [que tomou o nome literário de AGUINHAS, já escolhido pelo meu marido] e torná-la próxima de pessoas de nossas famílias e da "sociedade lambariense", visando a inserir a personagem em nossas memórias/histórias, quando fosse o caso.
(De fato, a gente queria que MARIA BELA fizesse parte tanto das minhas histórias/memórias, quanto das dele.)
Me sentei com o GUIMA certa noite e fizemos uma “tempestade de ideias”, listando tópicos que me ajudassem a compor a personagem MARIA BELA: pessoas, nomes, situações, memórias de antigas famílias, “causos” que se contavam na nossa infância, colegas de escola e brincadeiras, expressões, nome das coisas, animais, vocabulário, modo de falar, etc.
E discutimos também o modo de narrar a história de MARIA BELA...
Enfim, chegamos à conclusão de fazer um “diário de menina”, com a personagem contando sua história na primeira pessoa, ao seu modo, isto é: de forma alegre, dinâmica, numa linguagem cheia de sentenças terminantes, ditos curiosos e frases e expressões costuradas por hifens, muitos deles correntes na língua e outros criados por ela mesma...
DE ONDE SAEM OS PERSONAGENS, OS LOCAIS E COISAS E AS PALAVRAS?
Quanto aos personagens, fizemos uma lista dos que entrariam na história de vida de MARIA BELA: Vovô Pedro e vovó Dina – Filhas de Pedro/Dina – Pai de Maria Bela – Mãe de Maria Bela – Vó (materna de Maria Bela) – Cachorra Bruma – Cadelinha Babi, amigos e colegas de escola, entre os principais.
Para cada um desses personagens imaginamos pessoas reais e conhecidas, para termos em mente nome/imagem/personalidade/modos de vestir e falar, gostos pessoais, etc.
Isso auxilia no trabalho de caracterizar e descrever os personagens.
Bruma e Babi foram inspiradas em animais da família.
Quanto aos LOCAIS, tivemos de pensar na cidade (que seria Lambari/Aguinhas), no sítio da família e sua localização, no grupo escolar e outros logradouros.
Visualizar e contextualizar esses locais facilita a descrição, o movimento das personagens, etc.
Quanto às COISAS, anotamos nomes de objetos incomuns ou antigos.
Bem, aqui não tivemos problema, pois o GUIMA durante anos montou um arsenal de palavras/expressões/nomes/frases feitas, etc.
Ele recortava trechos de jornais e revistas, fazia leituras anotadas de romances, contos e poesias, colhia palavras de dicionários diversos...
Quando viajávamos, pedia que anotasse numa caderneta nomes incomuns de placas, de localidades, de rios, de pessoas, de estabelecimentos à beira da estrada...
(Aliás, foi numa dessas viagens que ele viu a placa: BAIRRO MARIA BELA, e disse: — Olha meu bem, MARIA BELA — Maria Elisa + IsaBela — pode ser um bom nome para a personagem que queremos criar...)

Depois digitava pacientemente extenso rol de palavras/nomes/expressões, etc. para futuras consultas.
Em paralelo, inventou um formulário para registrar ideias/planos/esboços de histórias e memórias que pretendia narrar, formulário esse que acabei usando também. [Ele tem mania de formulário e vai criando um monte deles...Vejam o ANEXO no pé deste post. ]
Sua mesa vivia cheia de papéis, uma infinidade de lápis e canetas ao alcance da mão, livros esparramados por toda o escritório — e também pelo banheiro, pela varanda, pela rede — ele tinha, contudo, uma memória infalível de localizar o que precisava...
Ai de quem arrumasse sua bagunça e tirasse alguma coisa do lugar!
Quando o GUIMA terminava um texto qualquer, pedia que eu lesse em voz alta, devagar, para sentir o tom, a expressividade, o ritmo das frases.
Quando notava algum “defeito", interrompia a leitura e anotava o ponto para conferir depois, quando fosse revisar o texto.
Desenvolveu também um método de autorrevisão, uma espécie de checklist do texto, que acabaria divulgando mais tarde no site GUIMAGÜINHAS.
A formação técnica do GUIMA é Contabilidade, mas ele se autoinstruiu em Redação, inspirado talvez por suas professoras de português: Maria Rita Lisboa Pereira Santoro e Sônia Gorgulho.
Aliás, a primeira professora citada acima — Maria Rita, minha tia-avó — é prima de duas literatas lambarienses da família Lisboa: Alaíde e Henriqueta.
GUIMA criou um método prático de redação pessoal, mediante o qual o próprio autor pode desenvolver ou atualizar competências de planejar, redigir e revisar seus textos pessoais, profissionais e acadêmicos.
Algumas ferramentas desse método — Pequeno roteiro para produção e revisão de textos, Lista simplificada de elaboração de texto e Lista simplificada de correção de texto — podem ser examinadas no site GUIMAGÜINHAS:
As ferramentas de planejamento/redação/revisão de textos mencionadas acima, e outras que desenvolvi posteriormente, foram, a partir de 2020, disponibilizadas no site https://www.textopratico.com/.
Veja estes materais:
Ah, foi importante também a ajuda do meu marido para que eu encontrasse o tom da narração.
Como devia falar/escrever de forma alegre e dinâmica uma personagem/menina geniosa, arteira, mordaz, que fora criada no interior e na capital, que estudou em escola pública e em requintado colégio particular, que recebeu aulas de gramática, redação, boas maneiras, etc. de uma refinada tia intelectual?
Bem, mexendo e remexendo na narração, ajustando aqui e ali, acabei encontrando um jeito de dar voz à personagem Maria Bela.
E assim fui em frente...
NASCE A HISTORINHA PARA CONHECER MARIA BELA
Escreve, rabisca, corta, emenda, põe, tira — quem escreve sabe quantas vezes se mexe num texto (tira, põe, tira de novo, muda aqui, muda ali...) até a versão final... Ainda mais quando se tem um marido xereta conferindo cada linha! — e a historinha PARA CONHECER MARIA BELA foi surgindo, e cheguei à versão que vai ser divulgada em próximo post.
Ficou boa? Não sei.
Vamos ver como funciona à vista dos (possíveis) leitores do meu texto.
Só eles (se eu os tiver) poderão um dia me dizer...
Lambari, julho de 2017
Celeste Krauss


Em 2022, eu lancei o livro A GUERRA DAS ESPINGARDINHAS, no qual utilizei a parte inicial do texto PARA CONHECER MARIA BELA.
Como ficou dito acima, no quarto post da Série Memórias de Celeste Krauss divulgaremos a íntegra da historinha PARA CONHECER MARIA BELA, como também mais à frente lançaremos um e-book com o seguinte conteúdo:

Capa (sugestiva) do e-book que vem sendo preparado
PÓS-ESCRITO: Anotações de Celeste Krauss
Veja o texto Anotações de Celeste Krauss: https://guimaguinhas.prosaeverso.net/blog.php?idb=69499#CAD
ANEXO - MODELOS DE FICHAS DE ANOTAÇÕES E ESTUDOS


